O passado não é mais, o futuro ainda não é; o esquecimento e a improvisação são fatos naturais. O que é mais improvisado, a cada vez, do que a primavera? E o que é esquecido mais depressa? A própria repetição, tão impressionante, não passa de um logro: é por se esquecerem que as estações se repetem, e justamente por causa do que torna a natureza sempre nova que ela só inova raramente. Toda invenção verdadeira, toda criação verdadeira supõe a memória. Foi o que viu Bergson, que por isso teve de inventar uma memória do mundo (a duração); mas essa memória seria Deus, e é por isso que ela não existe. A natureza se esquece de ser Deus, ou Deus se esquece na natureza. Se há uma história do universo – e é claro que há -, ela é uma seqüência de improvisações caóticas ou incertas, sem projeto (nem mesmo o de improvisar) nem memória. O contrário de uma obra, ou que só obra por casualidade. Um prodígio improvável e sem amanhã. Porque o que dura ou se repete só ocorre mudando, e nada começa que não deva acabar. A inconstância é a regra. O esquecimento é a regra. O real, de instante em instante, é sempre novo, e essa novidade cabal, essa novidade perene é o mundo. A natureza é a grande esquecidiça, e é nisso também que ela é material. A matéria é o próprio esquecimento – só há memória do espírito. Portanto, o esquecimento é que terá a última palavra, como teve a primeira, como não pára de ter. O real é essa primeira palavra do ser, essa perpétua primeira palavra. Como poderia querer dizer algo? A criança-rei (o tempo) não é gaga, no entanto; ela não fala nem se cala, não inventa nem repete. Inconstância, esquecimento, inocência: realeza de uma criança! O devir é infiel, e mesmo as estações são volúveis. Mas há o espírito, mas há a memória. De pouco peso, de pouca duração. Essa fragilidade é o próprio espírito. Mortal no coração dos mortais – mas vivo, como espírito, pela lembrança que guarda dele! O espírito é memória, e talvez seja apenas isso. Pensar é lembrar-se de seus pensamentos; querer é lembrar-se do que se quer. Não é, por certo, que só se possa pensar o mesmo ou querer o que já se quis. Mas o que seria uma invenção sem memória? E uma decisão sem memória? Como o corpo é o presente do presente, o espírito é o presente do passado, no duplo sentido da palavra presente: o que o passado nos lega e, em nós, o que permanece. É o que santo Agostinho chamava de “presente do passado”, e é isso a memória. O espírito começa aí. O espírito preocupado, o espírito fiel. A preocupação, que é a memória do futuro, faz-se lembrar suficientemente a nós. É sua natureza, ou melhor, é a nossa. Quem esqueceria – fora os sábios e os loucos – que tem futuro? E quem, fora os maus, só se preocuparia com o seu? Os homens são egoístas com certeza, mas menos absolutamente do que às vezes se imagina: ei-los, mesmo quando não têm filhos, a se preocupar com as gerações futuras, e é uma bela preocupação. O mesmo homem que não se angustia com seus cigarros inquieta-se com um buraco no ozônio. Despreocupado consigo, preocupado com os outros. Quem iria censurá-lo por isso? O fato é que não esquecemos o futuro (esqueceríamos antes o presente!), e tanto menos quanto mais o ignoramos. O passado é mais desprovido. O futuro nos inquieta, o futuro nos atormenta. Seu nada constitui sua força. Do passado, ao contrário, parece que não temos mais nada a temer, mais nada a esperar, e isso sem dúvida não é totalmente errado. Epicuro fez disso uma sabedoria: na tempestade do tempo, o porto profundo da memória... Mas o esquecimento é um porto mais seguro. Se os neuróticos sofrem de reminiscência, como dizia Freud, a sanidade psíquica bem que deve, em alguma coisa, alimentar-se de esquecimento. “Deus preserve o homem de esquecer de esquecer!”, escreve o poeta, e Nietzsche também enxergou muito bem onde estavam a vida e a felicidade. “É possível viver quase sem lembrança, e viver feliz, como demonstra o animal, mas é impossível viver sem esquecer.” Portanto, anotemos. Mas a vida é o objetivo? A felicidade é o objetivo? Pelo menos essa vida e essa felicidade? Devemos invejar o animal, a planta, a pedra? E mesmo que os invejássemos, deveríamos nos submeter a essa inveja? Que restaria do espírito? Que restaria da humanidade? Devemos tender unicamente à sanidade ou à higiene? Pensamento sanitário, que aí encontra sua força e seus limites. Mesmo que o espírito fosse uma doença, mesmo que a humanidade fosse uma desgraça, essa doença, essa desgraça são nossas – pois são nós, pois só somos por elas. Do passado, não façamos tábua rasa. Toda a dignidade do homem está no pensamento; toda a dignidade do pensamento está na memória. Pensamento esquecidiço talvez seja pensamento, mas sem espírito. Desejo esquecidiço é desejo, sem dúvida, mas sem vontade, sem coração, sem alma. A ciência e o animal dão mais ou menos uma idéia disso – embora isso não seja verdade para todos os animais (alguns são fiéis, dizem) nem, talvez, para todas as ciências. Pouco importa. O homem só é espírito pela memória, só é humano pela fidelidade. Guarde-se, homem, de se esquecer de se lembrar! O espírito fiel é o próprio espírito. Pego o problema de longe, porque ele é imenso. A fidelidade não é um valor entre outros, uma virtude entre outras: ela é aquilo por que, para que há valores e virtudes. Que seria a justiça sem a fidelidade dos justos? A paz, sem a fidelidade dos pacíficos? A liberdade, sem a fidelidade dos espíritos livres? E que valeria a própria verdade sem a fidelidade dos verídicos? Ela não seria menos verdadeira, decerto, mas seria uma verdade sem valor, da qual nenhuma virtude poderia nascer. Não há sanidade sem esquecimento, talvez; mas não há virtude sem fidelidade. Higiene ou moral. Higiene e moral. Porque não se trata de esquecer nada, nem de ser fiel a qualquer coisa. Nem a sanidade basta, nem a santidade de impõe. “Não se trata de ser sublime, basta ser fiel e sério.” Aí está. A fidelidade é virtude de memória, e a própria memória como virtude. Mas que memória? Ou memória de quê? E em que condições? E dentro de que limites? Não se trata, repitamos, de ser fiel a qualquer coisa; já não seria fidelidade, e sim passadismo, obstinação bitolada, teima, rotina, fanatismo... Toda virtude se opõe a dois excessos, lembraria um aristotélico: a versatilidade é um, a obstinação é outro, e a fidelidade rejeita ambos igualmente. Meio-termo? Se quisermos, mas não como entendem os tíbios ou os frívolos (não se trata de ser um pouco versátil e um pouco obstinado!). O centro do alvo daria a idéia disso, melhor do que o atoleiro de nossas assembléias. Cumeada, dizia eu, entre dois abismos. A fidelidade não é nem versátil nem obstinada, e é nisso que é fiel. Quer dizer, então, que ela vale em si mesma? Para si mesma? Por si mesma? Não, ou não somente. É sobretudo seu objeto que constitui seu valor. Não se muda de amigo como de camisa, notava aproximadamente Aristóteles, e seria tão ridículo ser fiel a suas roupas quanto condenável não o ser a seus amigos – salvo, como diz alhures o filósofo, “excesso de perversidade da parte deles”. A fidelidade não desculpa tudo: ser fiel ao pior é pior do que renegá-lo. Os SS juravam fidelidade a Hitler; essa fidelidade no crime era criminosa. Fidelidade ao mal é má fidelidade. E “a fidelidade na tolice”, observa Jankélévitch, “é uma tolice mais”. Cabe aqui – fidelidade de escolar, ainda que rebelde – citar mais longamente o Mestre: A fidelidade é ou não louvável? “Conforme”, ou seja: depende dos valores a que se é fiel. Fiel a quê? (...) Ninguém dirá que o ressentimento é uma virtude, embora ele permaneça fiel a seu ódio ou a suas cóleras; a boa memória da afronta é uma má fidelidade. Tratando-se de fidelidade, o epíteto não é tudo? E há ainda uma fidelidade às pequenas coisas, que é mesquinharia e tenaz memória das bagatelas, repisamento e teima. (...) A virtude que queremos não é, pois, toda fidelidade, mas apenas boa fidelidade e grande fidelidade. (Jankélévitch) Muito bem: a fidelidade amante, fidelidade virtuosa, fidelidade voluntária. Não basta lembrar-se. Pode-se esquecer sem ser infiel, aliás, e ser infiel sem esquecer. Melhor, a infidelidade supõe a memória: uma pessoa só pode ser fiel ou infiel àquilo de que se lembra (um amnésico não poderia nem manter nem trair sua palavra), e é nisso que fidelidade e infidelidade são duas formas opostas da lembrança, uma virtuosa, a outra não. A fidelidade é “a virtude do Mesmo”, dizia ainda Jankélévitch; mas num mundo em que tudo muda, e é o mundo, só há mesmo por obra da memória e da vontade. Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, nem ama duas vezes a mesma mulher. Pascal: “Ele já não ama a pessoa que amava há dez anos. Acredito: ela não é mais a mesma, ele também não. Ele era jovem, ela também; ela está completamente diferente. Ele talvez ainda a amasse, tal como ela era então.” A fidelidade é a virtude do mesmo, pela qual o mesmo existe ou resiste. Por que eu manteria minha promessa da véspera, já que não sou mais o mesmo hoje? Por quê? Por fidelidade. É esse, de acordo com Montaigne, o verdadeiro fundamento da identidade pessoal: “O fundamento de meu ser e de minha identidade é puramente moral: ele está na fidelidade à fé que jurei a mim mesmo. Não sou realmente o mesmo de ontem; sou o mesmo unicamente porque eu me confesso o mesmo, porque assumo um certo passado como sendo meu, e porque pretendo, no futuro, reconhecer meu compromisso presente como sempre meu.” Não há sujeito moral sem fidelidade de si para consigo, e é nisso que a fidelidade é devida: pois de outro modo não haveria deveres! É nisso também que a infidelidade é possível: como a fidelidade é virtude da memória, assim a infidelidade é sua falta (muito mais que seu defeito ou sua ausência). A anamnésia não é tudo: a boa memória nem sempre é boa, a lembrança precisa nem sempre é amante ou respeitosa. Virtude de memória é mais que memória; fidelidade é mais que exatidão. A fidelidade é o contrário, não do esquecimento, mas da versatilidade frívola ou interessada, do renegamento, da perfídia, da inconstância. É verdade, porém, que ela se opõe ao esquecimento – como toda virtude se opõe à ladeira que ela sobe -, que a infidelidade, ao contrário, acaba por acarretar: traímos primeiro aquilo de que nos lembramos, depois esquecemos o que traímos... A infidelidade se abole, assim, em seu triunfo, ao passo que a fidelidade só triunfa, sempre provisoriamente, recusando abolir-se (não conhece outro triunfo, quero dizer, além da perpetuação sem fim do combate contra o esquecimento ou o renegamento). Fidelidade desesperada, escreve Jankélévitch, e não serei eu a censurá-lo por isso. É que “não é igual a luta entre a maré irresistível do esquecimento, que, com o tempo, submerge todas as coisas, e os protestos desesperados, mas intermitentes, da memória; recomendando-nos o esquecimento, os professores de perdão aconselham-nos, pois, o que não precisa ser aconselhado: os próprios esquecidiços se encarregarão de fazê-lo, é tudo o que querem. É o passado que reclama nossa piedade e nossa gratidão, pois o passado não se defende sozinho, como se defendem o presente e o futuro...” É este o dever da memória: piedade e gratidão pelo passado. O duro dever, o exigente dever, o imprescritível dever de ser fiel! Evidentemente esse dever tem sua gradação. Jankélévitch, no texto que acabo de citar, pensa nos campos de concentração nazista e no martírio do povo judeu. Martírio absoluto: dever absoluto. Não temos de ser fiéis ao mesmo título, nem no mesmo grau, a nossos primeiros amores ou aos campeões de ciclismo que entusiasmaram nossa infância... A fidelidade só deve dirigir-se ao que vale, e proporcionalmente – se ouso dizer, já que se trata de grandezas por natureza não-quantificáveis – ao valor do que vale. Fidelidade primeiro ao sofrimento, à coragem desinteressada, ao amor... Assalta-me uma dúvida: o sofrimento é, então, um valor? Não, é claro, tomado em si mesmo, ou então apenas negativo: o sofrimento é um mal, e seria um engano ver nele uma redenção. Mas, embora o sofrimento não seja um valor, toda vida sofrida, sim, o é, pelo amor que exige ou merece: amar quem sofre (a caridade dos cristãos, a compaixão dos budistas, a commiseratio dos spinozistas...) é mais importante do que amar o que é belo ou grande, e o valor nada mais é do que o que merece ser amado. É nisso que toda fidelidade – seja ela fidelidade a um valor ou a alguém – é fidelidade ao amor e pelo amor. Fidelidade é amor fiel, o uso comum não se engana a esse respeito, ou só se engana enganando-se sobre o amor (se o limitar, erroneamente, apenas às relações do casal). Não que todo amor seja fiel (é por isso que a fidelidade não se reduz ao amor); mas toda fidelidade é amante, sempre (fidelidade no ódio não é fidelidade, mas rancor ou perseguição), e boa por isso, amável por isso. Fidelidade, pois, à fidelidade – e aos diferentes graus de fidelidade! Quanto aos domínios particulares, não terminaríamos de enumerá-los. Permitam-me evocar, e bem rapidamente, apenas três: o pensamento, a moral, o casal. Que existe uma fidelidade do pensamento, é mais do que claro. Não se pensa qualquer coisa, pois pensar qualquer coisa não seria mais pensar. A própria dialética, tão cômoda aos sofistas, só é um pensamento pela fidelidade às suas leis, às suas exigências, à própria contradição que ela assume e supera. “Não se deve confundir”, dizia Sartre, “dialética com o borboletear das idéias.” A fidelidade é mais ou menos o que as distingue, como podemos ver na grande Lógica de Hegel, toda ela fiel a seu começo e a seu improvável rigor. Mais geralmente, podemos dizer que um pensamento só escapa do nada ou do bate-papo pelo esforço, que o constitui, em resistir ao esquecimento, à inconstância das modas ou dos interesses, às seduções do momento ou do poder. Todo pensamento, observa Marcel Conche, “correrá continuamente o risco de perder-se, se não fizermos o esforço de guardá-lo. Não há pensamento sem memória, sem luta contra o esquecimento e o risco de esquecimento.” Isso significa que não há pensamento sem fidelidade: para pensar, é preciso não apenas lembrar (o que ainda não permitiria mais que a consciência, e nem toda consciência é pensamento), mas querer lembrar. A fidelidade é essa vontade, ou antes, é seu ato e sua virtude. Acaso ela não supõe também a vontade de sempre pensar o que lembramos ter pensado? Vontade, pois, não apenas de lembrar, mas de não mudar? Sim e não. Sim, pois querer lembrar-se de um pensamento seria inútil se este só devesse valer como lembrança, como um bibelô mental ou conceitual: ser fiel a suas idéias é não apenas lembrar-se de que as teve, mas querer conservá-las vivas (querer lembrar-se não apenas de que as teve, mas de que as tem). E não, porém, porque querer conservá-las à força seria recusar submetê-las, se necessário, à prova da discussão, da experiência ou da reflexão: ser fiel mais a seus pensamentos do que à verdade seria ser infiel ao pensamento como tal e condenar-se, ainda que por uma boa causa, à sofística. Fidelidade à verdade, antes de tudo! É nisso que a fidelidade se distingue da fé e, a fortiriori, do fanatismo. Ser fiel, para o pensamento, não é recusar-se a mudar de idéia (dogmatismo), nem submeter suas idéias a outra coisa que não a elas mesmas (fé), nem considerá-las como absolutos (fanatismo); é recusar-se a mudar de idéia sem boas e fortes razões e – já que não se pode examinar sempre – é dar por verdadeiro, até novo exame, o que uma vez foi clara e solidamente julgado. Nem dogmatismo, pois, nem inconstância. Tem-se o direito de mudar de idéia, mas apenas quando é um dever. Fidelidade à verdade, antes de tudo, depois à lembrança da verdade (à verdade conservada): este é o pensamento fiel, isto é, o pensamento. Quando digo que a ciência não se ocupa disso, compreendam-me corretamente: não se trata, é óbvio, dos cientistas nem, portanto, da ciência em via de se fazer. Mas, considerando-a em seus resultados, a ciência vive no presente e está sempre esquecendo seus primeiros passos. A filosofia, ao contrário, está sempre continuando os seus, desde o início. Que físico relê Newton? Que filósofo não relê Aristóteles? A ciência progride e esquece; a filosofia medita e se lembra. Aliás, o que é a filosofia, senão uma fidelidade extrema ao pensamento? Mas vamos à moral. Faz parte da sua essência que ela tem algo a ver com a fidelidade. Kant, porém, não estaria de acordo com isso: a fidelidade é um dever, ele teria dito (por exemplo, entre amigos ou esposos), mas o dever não poderia ser reduzido à fidelidade. A lei moral, por ser atemporal, está sempre diante de nós; trata-se não de ser fiel, mas de obedecer. Fidelidade a quê, de resto? Se é ao que o dever prescreve, ela é supérflua (pois o dever, fidelidade ou não, se impõe por si mesmo); se é a outra coisa, é acessória (pois só o dever importa absolutamente). Quanto à fidelidade que o dever impõe (fidelidade à palavra empenhada, fidelidade conjugal...), ela é, para Kant, apenas um caso particular do dever e a ele se reduz. A fidelidade está subordinada à lei moral; não a lei moral à fidelidade. Sim, se é que há uma lei moral, no sentido em que Kant a entende: universal, absoluta, atemporal, incondicional... Se é que há, pois, uma razão prática, que comanda absolutamente, sem nenhuma preocupação com o tempo ou o espaço. Mas que sabemos de uma razão assim? Que experiência temos dela? E quem pode acreditar nela, hoje em dia? Kant teria razão se houvesse uma lei moral universal e absoluta, logo um fundamento objetivo da moral. Mas não os conheço, e é esse o destino que nossa época nos impõe, parece-me: termos de ser morais sem já crermos na verdade (absoluta) da moral. Em nome de que, pois, sermos virtuosos? Em nome da fidelidade: por fidelidade à fidelidade! É o espírito judaico contra a razão alemã, se quisermos, e só ele é capaz de salvá-la da barbárie. Que ingenuidade, objetaria Bergson a Kant, pretender fundar a moral sobre o culto da razão, em outras palavras, na prática, sobre o respeito ao princípio de não-contradição! Cavaillès, como grande lógico que era, dirá a mesma coisa. Que uma moral deva ser razoável, é óbvio, pois deve ser universal (em todo caso, universalizável); mas nenhuma razão basta para tanto: “Diante de uma tendência um pouco forte, o princípio de não-contradição nada pode, e as mais fulgurantes evidências se atenuam. A geometria nunca salvou ninguém.” Não há virtude more geometrico. Em que a barbárie é menos coerente do que a civilização? A avareza menos lógica que a generosidade? E, ainda que fossem, em que isso é um argumento contra a barbárie ou a avareza? Evidentemente, não se trata de renunciar à razão, pois o espírito não sobreviveria a isso. Trata-se simplesmente de não confundir a razão, que é fidelidade ao verdadeiro, com a moral, que é fidelidade à lei e ao amor. Ambas podem ir de par, é claro, e é isso que chamo de espírito. Mas razão e moral nem por isso deixam de ser duas, e irredutíveis uma à outra. Em outras palavras, a moral não é verdadeira, mas é válida: ela é objeto não de conhecimento (pelo menos o conhecimento que podemos ter dela é incapaz de exibir seu valor), mas de vontade. Não atemporal, mas histórica. Não à nossa frente, mas atrás de nós. Se não há fundamento para a moral, se não pode haver, a fidelidade é o que faz as vezes dele. Por ela, submetemo-nos não à atemporalidade de uma lei moral universal, mas à historicidade de um valor, à presença em nós, sempre particular, do passado, quer se trate do passado da humanidade em geral (a cultura, a civilização: o que nos separa da barbárie), quer se trate, em particular, de nosso passado pessoal ou daquele de nossos pais (o superego de Freud, a educação de cada um: o que separa nossa moral da moral dos outros). Fidelidade à lei, não como divina mas como humana, não como lei universal mas como particular (mesmo que essa lei seja universalizável, e deve sê-lo), não como lei atemporal mas como histórica: fidelidade à história, fidelidade à civilização e às Luzes, fidelidade à humanidade do homem! Não se trata de trair o que a humanidade fez de si, que nos fez. A moral começa pela polidez, dizia eu; ela continua – mudando de natureza – pela fidelidade. Fazemos primeiro o que se faz; depois, impomo-nos o que se deve fazer. Primeiro respeitamos as boas maneiras, depois as boas ações. Os bons costumes, depois a própria bondade. Fidelidade ao amor recebido, ao exemplo admirado, à confiança manifestada, à exigência, à paciência, à impaciência, à lei… O amor da mãe, a lei do pai. Não estou inventando nada, mas esquematizando muito. Cada um, porém, sabe o bastante a esse respeito. O dever, a proibição, o remorso, a satisfação de ter agido corretamente, a vontade de fazer direito, o respeito ao outro… Tudo isso “depende, no mais alto grau, da educação”, como dizia Spinoza, o que não é motivo para dispensá-lo! É apenas moral, sem dúvida, e a moral não é tudo, e a moral não é o essencial (o amor e a verdade importam mais). Contudo, quem, fora o sábio ou o santo, poderia prescindir dela? E como ela poderia prescindir da fidelidade? A fidelidade está no princípio de toda moral; ela é o contrário da “derrubada de todos os valores”, a qual deveria derrubar também a fidelidade, e não o pode, e se julga por isso. “Queremos ser herdeiros de toda a moralidade anterior”, dizia Nietzsche, “não pretendemos começar com novos gastos. Toda nossa ação nada mais é que uma moralidade em revolta contra sua forma anterior.” Essa revolta e essa herança são, mais uma vez, fidelidade. E temos mesmo de nos revoltar? Contra quem? Contra Sócrates? Contra Epicteto? Contra o Cristo dos Evangelhos? Contra Montaigne? Contra Spinoza? Quem poderia? Quem quereria? Como não ver que são, no essencial, fiéis, uns e outros, aos mesmos valores, aos quais só se poderia renunciar renunciando à humanidade? “Não vim abolir, mas realizar…” Palavra de fiel – e mais bela ainda sem a fé, e mais urgente ainda sem a fé. Fidelidade não a Deus, mas ao homem, e ao espírito do homem (à humanidade não como fato biológico, mas como valor cultural). Todas as barbáries deste século foram desencadeadas em nome do futuro (o Reich de mil anos, o “amanhã cantante”, ou que deveria cantar, do stalinismo…). Ninguém me tira a idéia de que se resistiu a elas, moralmente, apenas por fidelidade a um certo passado. O bárbaro é o infiel. Mesmo o amanhã cantante só é moralmente desejável em nome de valores muito antigos; foi o que Marx viu e que os marxistas começam a compreender. Não há moral do futuro. Toda moral, como toda cultura, vem do passado. Não há moral que não seja fiel. Para o casal é outra história. Que há casais fiéis e outros não, é uma verdade de fato, que não parece, ou já não parece, atingir o essencial. Pelo menos se entendemos por fidelidade, nesse sentido restrito, o uso exclusivo, e mutuamente exclusivo, do corpo do outro. Por que só amaríamos uma pessoa? Por que só desejaríamos uma pessoa? Ser fiel a suas idéias não é (felizmente!) ter uma só idéia; nem ser fiel em amizade supõe que tenhamos um só amigo. Fidelidade, nesses domínios, não é exclusividade. Por que deveria ser diferente no amor? Em nome do que poderíamos pretender o desfrute exclusivo do outro? É possível que isso seja mais cômodo ou mais seguro, mais fácil de viver, talvez, no fim das contas, mais feliz, e, enquanto houver amor, até acredito que seja. Mas nem a moral nem o amor parecem-me estar presos a isso por princípio. Cabe a cada um escolher, de acordo com sua força ou com suas fraquezas. A cada um, ou antes a cada casal: a verdade é valor mais elevado do que a exclusividade, e o amor me parece menos traído pelo amor (pelo outro amor) do que pela mentira. Outros pensarão o contrário, talvez eu também, em outro momento. Não é isso o essencial, parece-me. Há casais livres que são fiéis, à sua maneira (fiéis ao seu amor, fiéis à sua palavra, fiéis à sua liberdade comum…). E tantos outros, estritamente fiéis, tristemente fiéis, em que cada um dos dois preferiria não o ser… O problema, aqui, é menos a fidelidade do que o ciúme, menos o amor do que o sofrimento. Não é mais meu tema. Fidelidade não é compaixão. Serão duas virtudes? Sem dúvida, mas, justamente: são duas. Não fazer sofrer é uma coisa; não trair é outra, e é o que se chama fidelidade. O essencial é saber o que faz com que um casal seja um casal. O simples encontro sexual, por mais repetido que seja, não bastaria evidentemente para tanto. Mas também não a simples coabitação, por mais duradoura que seja. O casal, no sentido em que uso a palavra, supõe tanto o amor como a duração. Supõe, portanto, a fidelidade, pois o amor só dura sob a condição de prolongar a paixão (breve demais para fazer um casal, suficiente para desfazê-lo!) por memória e vontade. É o que significa o casamento, sem dúvida, e que o divórcio vem interromper. Se bem que… Uma amiga minha, divorciada, depois recasada, dizia-me que permanecia fiel, em alguma coisa, a seu primeiro marido. “Quero dizer”, explicou-me, “ao que vivemos juntos, a nossa história, a nosso amor… Não quero renegar tudo isso.” Nenhum casal, com maior razão, poderia durar sem essa fidelidade, em cada um, à sua história comum, sem esse misto de confiança e de gratidão pelo qual os casais felizes (há alguns) se tornam tão comoventes, ao envelhecer, mais até que os namorados que começam, que, na maioria dos casos, ainda não fazem mais que sonhar seu amor. Essa fidelidade me parece preciosa, mais que a outra, e mais essencial ao casal. Que o amor se aplaque ou decline, é sempre o mais provável, e é bobagem afligir-se com isso. Mas quer se separe, quer continue a viver junto, o casal só continuará sendo casal por essa fidelidade ao amor recebido e dado, ao amor partilhado e à lembrança voluntária e reconhecida desse amor. Fidelidade é amor fiel, dizia eu, e assim é também o casal, mesmo o casal “moderno”, mesmo o casal “livre”. A fidelidade é o amor conservado ao que aconteceu, o amor ao amor, no caso, amor presente (e voluntário, e voluntariamente conservado) ao amor passado. Fidelidade é amor fiel, e fiel antes de tudo ao amor. Como eu poderia jurar que sempre te amarei ou que não amarei outra pessoa? Quem pode jurar seus sentimentos? E para que, quando não há mais amor, manter a ficção, os encargos ou as exigências do amor? Mas isso não é motivo para renegar ou não reconhecer o que houve. Por que precisaríamos, para amar o presente, trair o passado? Eu juro não que sempre te amarei, mas que sempre permanecerei fiel a esse amor que vivemos. O amor infiel não é o amor livre: é o amor esquecidiço, o amor renegado, o amor que esquece ou detesta o que amou e que, portanto, se esquece ou se detesta. Mas será isso ainda amor? Ama-me enquanto desejares, meu amor; mas não nos esqueça. /André Comte-Sponville¨A CADA DIA QUE VIVO, MAIS ME CONVENÇO DE QUE O DESPERDÍCIO DA VIDA ESTÁ NO AMOR QUE NÃO DAMOS, NAS FORÇAS QUE NÃO USAMOS, NA PRUDÊNCIA EGOÍSTA QUE NADA ARRISCA, E QUE, ESQUIVANDO-SE DO SOFRIMENTO, PERDEMOS TAMBÉM A FELICIDADE ¨. ( REDAÇÃO rogerlapan@pop.com.br ) ( fone: 11 73519511 )
sábado, 14 de março de 2009
A FIDELIDADE !
O passado não é mais, o futuro ainda não é; o esquecimento e a improvisação são fatos naturais. O que é mais improvisado, a cada vez, do que a primavera? E o que é esquecido mais depressa? A própria repetição, tão impressionante, não passa de um logro: é por se esquecerem que as estações se repetem, e justamente por causa do que torna a natureza sempre nova que ela só inova raramente. Toda invenção verdadeira, toda criação verdadeira supõe a memória. Foi o que viu Bergson, que por isso teve de inventar uma memória do mundo (a duração); mas essa memória seria Deus, e é por isso que ela não existe. A natureza se esquece de ser Deus, ou Deus se esquece na natureza. Se há uma história do universo – e é claro que há -, ela é uma seqüência de improvisações caóticas ou incertas, sem projeto (nem mesmo o de improvisar) nem memória. O contrário de uma obra, ou que só obra por casualidade. Um prodígio improvável e sem amanhã. Porque o que dura ou se repete só ocorre mudando, e nada começa que não deva acabar. A inconstância é a regra. O esquecimento é a regra. O real, de instante em instante, é sempre novo, e essa novidade cabal, essa novidade perene é o mundo. A natureza é a grande esquecidiça, e é nisso também que ela é material. A matéria é o próprio esquecimento – só há memória do espírito. Portanto, o esquecimento é que terá a última palavra, como teve a primeira, como não pára de ter. O real é essa primeira palavra do ser, essa perpétua primeira palavra. Como poderia querer dizer algo? A criança-rei (o tempo) não é gaga, no entanto; ela não fala nem se cala, não inventa nem repete. Inconstância, esquecimento, inocência: realeza de uma criança! O devir é infiel, e mesmo as estações são volúveis. Mas há o espírito, mas há a memória. De pouco peso, de pouca duração. Essa fragilidade é o próprio espírito. Mortal no coração dos mortais – mas vivo, como espírito, pela lembrança que guarda dele! O espírito é memória, e talvez seja apenas isso. Pensar é lembrar-se de seus pensamentos; querer é lembrar-se do que se quer. Não é, por certo, que só se possa pensar o mesmo ou querer o que já se quis. Mas o que seria uma invenção sem memória? E uma decisão sem memória? Como o corpo é o presente do presente, o espírito é o presente do passado, no duplo sentido da palavra presente: o que o passado nos lega e, em nós, o que permanece. É o que santo Agostinho chamava de “presente do passado”, e é isso a memória. O espírito começa aí. O espírito preocupado, o espírito fiel. A preocupação, que é a memória do futuro, faz-se lembrar suficientemente a nós. É sua natureza, ou melhor, é a nossa. Quem esqueceria – fora os sábios e os loucos – que tem futuro? E quem, fora os maus, só se preocuparia com o seu? Os homens são egoístas com certeza, mas menos absolutamente do que às vezes se imagina: ei-los, mesmo quando não têm filhos, a se preocupar com as gerações futuras, e é uma bela preocupação. O mesmo homem que não se angustia com seus cigarros inquieta-se com um buraco no ozônio. Despreocupado consigo, preocupado com os outros. Quem iria censurá-lo por isso? O fato é que não esquecemos o futuro (esqueceríamos antes o presente!), e tanto menos quanto mais o ignoramos. O passado é mais desprovido. O futuro nos inquieta, o futuro nos atormenta. Seu nada constitui sua força. Do passado, ao contrário, parece que não temos mais nada a temer, mais nada a esperar, e isso sem dúvida não é totalmente errado. Epicuro fez disso uma sabedoria: na tempestade do tempo, o porto profundo da memória... Mas o esquecimento é um porto mais seguro. Se os neuróticos sofrem de reminiscência, como dizia Freud, a sanidade psíquica bem que deve, em alguma coisa, alimentar-se de esquecimento. “Deus preserve o homem de esquecer de esquecer!”, escreve o poeta, e Nietzsche também enxergou muito bem onde estavam a vida e a felicidade. “É possível viver quase sem lembrança, e viver feliz, como demonstra o animal, mas é impossível viver sem esquecer.” Portanto, anotemos. Mas a vida é o objetivo? A felicidade é o objetivo? Pelo menos essa vida e essa felicidade? Devemos invejar o animal, a planta, a pedra? E mesmo que os invejássemos, deveríamos nos submeter a essa inveja? Que restaria do espírito? Que restaria da humanidade? Devemos tender unicamente à sanidade ou à higiene? Pensamento sanitário, que aí encontra sua força e seus limites. Mesmo que o espírito fosse uma doença, mesmo que a humanidade fosse uma desgraça, essa doença, essa desgraça são nossas – pois são nós, pois só somos por elas. Do passado, não façamos tábua rasa. Toda a dignidade do homem está no pensamento; toda a dignidade do pensamento está na memória. Pensamento esquecidiço talvez seja pensamento, mas sem espírito. Desejo esquecidiço é desejo, sem dúvida, mas sem vontade, sem coração, sem alma. A ciência e o animal dão mais ou menos uma idéia disso – embora isso não seja verdade para todos os animais (alguns são fiéis, dizem) nem, talvez, para todas as ciências. Pouco importa. O homem só é espírito pela memória, só é humano pela fidelidade. Guarde-se, homem, de se esquecer de se lembrar! O espírito fiel é o próprio espírito. Pego o problema de longe, porque ele é imenso. A fidelidade não é um valor entre outros, uma virtude entre outras: ela é aquilo por que, para que há valores e virtudes. Que seria a justiça sem a fidelidade dos justos? A paz, sem a fidelidade dos pacíficos? A liberdade, sem a fidelidade dos espíritos livres? E que valeria a própria verdade sem a fidelidade dos verídicos? Ela não seria menos verdadeira, decerto, mas seria uma verdade sem valor, da qual nenhuma virtude poderia nascer. Não há sanidade sem esquecimento, talvez; mas não há virtude sem fidelidade. Higiene ou moral. Higiene e moral. Porque não se trata de esquecer nada, nem de ser fiel a qualquer coisa. Nem a sanidade basta, nem a santidade de impõe. “Não se trata de ser sublime, basta ser fiel e sério.” Aí está. A fidelidade é virtude de memória, e a própria memória como virtude. Mas que memória? Ou memória de quê? E em que condições? E dentro de que limites? Não se trata, repitamos, de ser fiel a qualquer coisa; já não seria fidelidade, e sim passadismo, obstinação bitolada, teima, rotina, fanatismo... Toda virtude se opõe a dois excessos, lembraria um aristotélico: a versatilidade é um, a obstinação é outro, e a fidelidade rejeita ambos igualmente. Meio-termo? Se quisermos, mas não como entendem os tíbios ou os frívolos (não se trata de ser um pouco versátil e um pouco obstinado!). O centro do alvo daria a idéia disso, melhor do que o atoleiro de nossas assembléias. Cumeada, dizia eu, entre dois abismos. A fidelidade não é nem versátil nem obstinada, e é nisso que é fiel. Quer dizer, então, que ela vale em si mesma? Para si mesma? Por si mesma? Não, ou não somente. É sobretudo seu objeto que constitui seu valor. Não se muda de amigo como de camisa, notava aproximadamente Aristóteles, e seria tão ridículo ser fiel a suas roupas quanto condenável não o ser a seus amigos – salvo, como diz alhures o filósofo, “excesso de perversidade da parte deles”. A fidelidade não desculpa tudo: ser fiel ao pior é pior do que renegá-lo. Os SS juravam fidelidade a Hitler; essa fidelidade no crime era criminosa. Fidelidade ao mal é má fidelidade. E “a fidelidade na tolice”, observa Jankélévitch, “é uma tolice mais”. Cabe aqui – fidelidade de escolar, ainda que rebelde – citar mais longamente o Mestre: A fidelidade é ou não louvável? “Conforme”, ou seja: depende dos valores a que se é fiel. Fiel a quê? (...) Ninguém dirá que o ressentimento é uma virtude, embora ele permaneça fiel a seu ódio ou a suas cóleras; a boa memória da afronta é uma má fidelidade. Tratando-se de fidelidade, o epíteto não é tudo? E há ainda uma fidelidade às pequenas coisas, que é mesquinharia e tenaz memória das bagatelas, repisamento e teima. (...) A virtude que queremos não é, pois, toda fidelidade, mas apenas boa fidelidade e grande fidelidade. (Jankélévitch) Muito bem: a fidelidade amante, fidelidade virtuosa, fidelidade voluntária. Não basta lembrar-se. Pode-se esquecer sem ser infiel, aliás, e ser infiel sem esquecer. Melhor, a infidelidade supõe a memória: uma pessoa só pode ser fiel ou infiel àquilo de que se lembra (um amnésico não poderia nem manter nem trair sua palavra), e é nisso que fidelidade e infidelidade são duas formas opostas da lembrança, uma virtuosa, a outra não. A fidelidade é “a virtude do Mesmo”, dizia ainda Jankélévitch; mas num mundo em que tudo muda, e é o mundo, só há mesmo por obra da memória e da vontade. Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, nem ama duas vezes a mesma mulher. Pascal: “Ele já não ama a pessoa que amava há dez anos. Acredito: ela não é mais a mesma, ele também não. Ele era jovem, ela também; ela está completamente diferente. Ele talvez ainda a amasse, tal como ela era então.” A fidelidade é a virtude do mesmo, pela qual o mesmo existe ou resiste. Por que eu manteria minha promessa da véspera, já que não sou mais o mesmo hoje? Por quê? Por fidelidade. É esse, de acordo com Montaigne, o verdadeiro fundamento da identidade pessoal: “O fundamento de meu ser e de minha identidade é puramente moral: ele está na fidelidade à fé que jurei a mim mesmo. Não sou realmente o mesmo de ontem; sou o mesmo unicamente porque eu me confesso o mesmo, porque assumo um certo passado como sendo meu, e porque pretendo, no futuro, reconhecer meu compromisso presente como sempre meu.” Não há sujeito moral sem fidelidade de si para consigo, e é nisso que a fidelidade é devida: pois de outro modo não haveria deveres! É nisso também que a infidelidade é possível: como a fidelidade é virtude da memória, assim a infidelidade é sua falta (muito mais que seu defeito ou sua ausência). A anamnésia não é tudo: a boa memória nem sempre é boa, a lembrança precisa nem sempre é amante ou respeitosa. Virtude de memória é mais que memória; fidelidade é mais que exatidão. A fidelidade é o contrário, não do esquecimento, mas da versatilidade frívola ou interessada, do renegamento, da perfídia, da inconstância. É verdade, porém, que ela se opõe ao esquecimento – como toda virtude se opõe à ladeira que ela sobe -, que a infidelidade, ao contrário, acaba por acarretar: traímos primeiro aquilo de que nos lembramos, depois esquecemos o que traímos... A infidelidade se abole, assim, em seu triunfo, ao passo que a fidelidade só triunfa, sempre provisoriamente, recusando abolir-se (não conhece outro triunfo, quero dizer, além da perpetuação sem fim do combate contra o esquecimento ou o renegamento). Fidelidade desesperada, escreve Jankélévitch, e não serei eu a censurá-lo por isso. É que “não é igual a luta entre a maré irresistível do esquecimento, que, com o tempo, submerge todas as coisas, e os protestos desesperados, mas intermitentes, da memória; recomendando-nos o esquecimento, os professores de perdão aconselham-nos, pois, o que não precisa ser aconselhado: os próprios esquecidiços se encarregarão de fazê-lo, é tudo o que querem. É o passado que reclama nossa piedade e nossa gratidão, pois o passado não se defende sozinho, como se defendem o presente e o futuro...” É este o dever da memória: piedade e gratidão pelo passado. O duro dever, o exigente dever, o imprescritível dever de ser fiel! Evidentemente esse dever tem sua gradação. Jankélévitch, no texto que acabo de citar, pensa nos campos de concentração nazista e no martírio do povo judeu. Martírio absoluto: dever absoluto. Não temos de ser fiéis ao mesmo título, nem no mesmo grau, a nossos primeiros amores ou aos campeões de ciclismo que entusiasmaram nossa infância... A fidelidade só deve dirigir-se ao que vale, e proporcionalmente – se ouso dizer, já que se trata de grandezas por natureza não-quantificáveis – ao valor do que vale. Fidelidade primeiro ao sofrimento, à coragem desinteressada, ao amor... Assalta-me uma dúvida: o sofrimento é, então, um valor? Não, é claro, tomado em si mesmo, ou então apenas negativo: o sofrimento é um mal, e seria um engano ver nele uma redenção. Mas, embora o sofrimento não seja um valor, toda vida sofrida, sim, o é, pelo amor que exige ou merece: amar quem sofre (a caridade dos cristãos, a compaixão dos budistas, a commiseratio dos spinozistas...) é mais importante do que amar o que é belo ou grande, e o valor nada mais é do que o que merece ser amado. É nisso que toda fidelidade – seja ela fidelidade a um valor ou a alguém – é fidelidade ao amor e pelo amor. Fidelidade é amor fiel, o uso comum não se engana a esse respeito, ou só se engana enganando-se sobre o amor (se o limitar, erroneamente, apenas às relações do casal). Não que todo amor seja fiel (é por isso que a fidelidade não se reduz ao amor); mas toda fidelidade é amante, sempre (fidelidade no ódio não é fidelidade, mas rancor ou perseguição), e boa por isso, amável por isso. Fidelidade, pois, à fidelidade – e aos diferentes graus de fidelidade! Quanto aos domínios particulares, não terminaríamos de enumerá-los. Permitam-me evocar, e bem rapidamente, apenas três: o pensamento, a moral, o casal. Que existe uma fidelidade do pensamento, é mais do que claro. Não se pensa qualquer coisa, pois pensar qualquer coisa não seria mais pensar. A própria dialética, tão cômoda aos sofistas, só é um pensamento pela fidelidade às suas leis, às suas exigências, à própria contradição que ela assume e supera. “Não se deve confundir”, dizia Sartre, “dialética com o borboletear das idéias.” A fidelidade é mais ou menos o que as distingue, como podemos ver na grande Lógica de Hegel, toda ela fiel a seu começo e a seu improvável rigor. Mais geralmente, podemos dizer que um pensamento só escapa do nada ou do bate-papo pelo esforço, que o constitui, em resistir ao esquecimento, à inconstância das modas ou dos interesses, às seduções do momento ou do poder. Todo pensamento, observa Marcel Conche, “correrá continuamente o risco de perder-se, se não fizermos o esforço de guardá-lo. Não há pensamento sem memória, sem luta contra o esquecimento e o risco de esquecimento.” Isso significa que não há pensamento sem fidelidade: para pensar, é preciso não apenas lembrar (o que ainda não permitiria mais que a consciência, e nem toda consciência é pensamento), mas querer lembrar. A fidelidade é essa vontade, ou antes, é seu ato e sua virtude. Acaso ela não supõe também a vontade de sempre pensar o que lembramos ter pensado? Vontade, pois, não apenas de lembrar, mas de não mudar? Sim e não. Sim, pois querer lembrar-se de um pensamento seria inútil se este só devesse valer como lembrança, como um bibelô mental ou conceitual: ser fiel a suas idéias é não apenas lembrar-se de que as teve, mas querer conservá-las vivas (querer lembrar-se não apenas de que as teve, mas de que as tem). E não, porém, porque querer conservá-las à força seria recusar submetê-las, se necessário, à prova da discussão, da experiência ou da reflexão: ser fiel mais a seus pensamentos do que à verdade seria ser infiel ao pensamento como tal e condenar-se, ainda que por uma boa causa, à sofística. Fidelidade à verdade, antes de tudo! É nisso que a fidelidade se distingue da fé e, a fortiriori, do fanatismo. Ser fiel, para o pensamento, não é recusar-se a mudar de idéia (dogmatismo), nem submeter suas idéias a outra coisa que não a elas mesmas (fé), nem considerá-las como absolutos (fanatismo); é recusar-se a mudar de idéia sem boas e fortes razões e – já que não se pode examinar sempre – é dar por verdadeiro, até novo exame, o que uma vez foi clara e solidamente julgado. Nem dogmatismo, pois, nem inconstância. Tem-se o direito de mudar de idéia, mas apenas quando é um dever. Fidelidade à verdade, antes de tudo, depois à lembrança da verdade (à verdade conservada): este é o pensamento fiel, isto é, o pensamento. Quando digo que a ciência não se ocupa disso, compreendam-me corretamente: não se trata, é óbvio, dos cientistas nem, portanto, da ciência em via de se fazer. Mas, considerando-a em seus resultados, a ciência vive no presente e está sempre esquecendo seus primeiros passos. A filosofia, ao contrário, está sempre continuando os seus, desde o início. Que físico relê Newton? Que filósofo não relê Aristóteles? A ciência progride e esquece; a filosofia medita e se lembra. Aliás, o que é a filosofia, senão uma fidelidade extrema ao pensamento? Mas vamos à moral. Faz parte da sua essência que ela tem algo a ver com a fidelidade. Kant, porém, não estaria de acordo com isso: a fidelidade é um dever, ele teria dito (por exemplo, entre amigos ou esposos), mas o dever não poderia ser reduzido à fidelidade. A lei moral, por ser atemporal, está sempre diante de nós; trata-se não de ser fiel, mas de obedecer. Fidelidade a quê, de resto? Se é ao que o dever prescreve, ela é supérflua (pois o dever, fidelidade ou não, se impõe por si mesmo); se é a outra coisa, é acessória (pois só o dever importa absolutamente). Quanto à fidelidade que o dever impõe (fidelidade à palavra empenhada, fidelidade conjugal...), ela é, para Kant, apenas um caso particular do dever e a ele se reduz. A fidelidade está subordinada à lei moral; não a lei moral à fidelidade. Sim, se é que há uma lei moral, no sentido em que Kant a entende: universal, absoluta, atemporal, incondicional... Se é que há, pois, uma razão prática, que comanda absolutamente, sem nenhuma preocupação com o tempo ou o espaço. Mas que sabemos de uma razão assim? Que experiência temos dela? E quem pode acreditar nela, hoje em dia? Kant teria razão se houvesse uma lei moral universal e absoluta, logo um fundamento objetivo da moral. Mas não os conheço, e é esse o destino que nossa época nos impõe, parece-me: termos de ser morais sem já crermos na verdade (absoluta) da moral. Em nome de que, pois, sermos virtuosos? Em nome da fidelidade: por fidelidade à fidelidade! É o espírito judaico contra a razão alemã, se quisermos, e só ele é capaz de salvá-la da barbárie. Que ingenuidade, objetaria Bergson a Kant, pretender fundar a moral sobre o culto da razão, em outras palavras, na prática, sobre o respeito ao princípio de não-contradição! Cavaillès, como grande lógico que era, dirá a mesma coisa. Que uma moral deva ser razoável, é óbvio, pois deve ser universal (em todo caso, universalizável); mas nenhuma razão basta para tanto: “Diante de uma tendência um pouco forte, o princípio de não-contradição nada pode, e as mais fulgurantes evidências se atenuam. A geometria nunca salvou ninguém.” Não há virtude more geometrico. Em que a barbárie é menos coerente do que a civilização? A avareza menos lógica que a generosidade? E, ainda que fossem, em que isso é um argumento contra a barbárie ou a avareza? Evidentemente, não se trata de renunciar à razão, pois o espírito não sobreviveria a isso. Trata-se simplesmente de não confundir a razão, que é fidelidade ao verdadeiro, com a moral, que é fidelidade à lei e ao amor. Ambas podem ir de par, é claro, e é isso que chamo de espírito. Mas razão e moral nem por isso deixam de ser duas, e irredutíveis uma à outra. Em outras palavras, a moral não é verdadeira, mas é válida: ela é objeto não de conhecimento (pelo menos o conhecimento que podemos ter dela é incapaz de exibir seu valor), mas de vontade. Não atemporal, mas histórica. Não à nossa frente, mas atrás de nós. Se não há fundamento para a moral, se não pode haver, a fidelidade é o que faz as vezes dele. Por ela, submetemo-nos não à atemporalidade de uma lei moral universal, mas à historicidade de um valor, à presença em nós, sempre particular, do passado, quer se trate do passado da humanidade em geral (a cultura, a civilização: o que nos separa da barbárie), quer se trate, em particular, de nosso passado pessoal ou daquele de nossos pais (o superego de Freud, a educação de cada um: o que separa nossa moral da moral dos outros). Fidelidade à lei, não como divina mas como humana, não como lei universal mas como particular (mesmo que essa lei seja universalizável, e deve sê-lo), não como lei atemporal mas como histórica: fidelidade à história, fidelidade à civilização e às Luzes, fidelidade à humanidade do homem! Não se trata de trair o que a humanidade fez de si, que nos fez. A moral começa pela polidez, dizia eu; ela continua – mudando de natureza – pela fidelidade. Fazemos primeiro o que se faz; depois, impomo-nos o que se deve fazer. Primeiro respeitamos as boas maneiras, depois as boas ações. Os bons costumes, depois a própria bondade. Fidelidade ao amor recebido, ao exemplo admirado, à confiança manifestada, à exigência, à paciência, à impaciência, à lei… O amor da mãe, a lei do pai. Não estou inventando nada, mas esquematizando muito. Cada um, porém, sabe o bastante a esse respeito. O dever, a proibição, o remorso, a satisfação de ter agido corretamente, a vontade de fazer direito, o respeito ao outro… Tudo isso “depende, no mais alto grau, da educação”, como dizia Spinoza, o que não é motivo para dispensá-lo! É apenas moral, sem dúvida, e a moral não é tudo, e a moral não é o essencial (o amor e a verdade importam mais). Contudo, quem, fora o sábio ou o santo, poderia prescindir dela? E como ela poderia prescindir da fidelidade? A fidelidade está no princípio de toda moral; ela é o contrário da “derrubada de todos os valores”, a qual deveria derrubar também a fidelidade, e não o pode, e se julga por isso. “Queremos ser herdeiros de toda a moralidade anterior”, dizia Nietzsche, “não pretendemos começar com novos gastos. Toda nossa ação nada mais é que uma moralidade em revolta contra sua forma anterior.” Essa revolta e essa herança são, mais uma vez, fidelidade. E temos mesmo de nos revoltar? Contra quem? Contra Sócrates? Contra Epicteto? Contra o Cristo dos Evangelhos? Contra Montaigne? Contra Spinoza? Quem poderia? Quem quereria? Como não ver que são, no essencial, fiéis, uns e outros, aos mesmos valores, aos quais só se poderia renunciar renunciando à humanidade? “Não vim abolir, mas realizar…” Palavra de fiel – e mais bela ainda sem a fé, e mais urgente ainda sem a fé. Fidelidade não a Deus, mas ao homem, e ao espírito do homem (à humanidade não como fato biológico, mas como valor cultural). Todas as barbáries deste século foram desencadeadas em nome do futuro (o Reich de mil anos, o “amanhã cantante”, ou que deveria cantar, do stalinismo…). Ninguém me tira a idéia de que se resistiu a elas, moralmente, apenas por fidelidade a um certo passado. O bárbaro é o infiel. Mesmo o amanhã cantante só é moralmente desejável em nome de valores muito antigos; foi o que Marx viu e que os marxistas começam a compreender. Não há moral do futuro. Toda moral, como toda cultura, vem do passado. Não há moral que não seja fiel. Para o casal é outra história. Que há casais fiéis e outros não, é uma verdade de fato, que não parece, ou já não parece, atingir o essencial. Pelo menos se entendemos por fidelidade, nesse sentido restrito, o uso exclusivo, e mutuamente exclusivo, do corpo do outro. Por que só amaríamos uma pessoa? Por que só desejaríamos uma pessoa? Ser fiel a suas idéias não é (felizmente!) ter uma só idéia; nem ser fiel em amizade supõe que tenhamos um só amigo. Fidelidade, nesses domínios, não é exclusividade. Por que deveria ser diferente no amor? Em nome do que poderíamos pretender o desfrute exclusivo do outro? É possível que isso seja mais cômodo ou mais seguro, mais fácil de viver, talvez, no fim das contas, mais feliz, e, enquanto houver amor, até acredito que seja. Mas nem a moral nem o amor parecem-me estar presos a isso por princípio. Cabe a cada um escolher, de acordo com sua força ou com suas fraquezas. A cada um, ou antes a cada casal: a verdade é valor mais elevado do que a exclusividade, e o amor me parece menos traído pelo amor (pelo outro amor) do que pela mentira. Outros pensarão o contrário, talvez eu também, em outro momento. Não é isso o essencial, parece-me. Há casais livres que são fiéis, à sua maneira (fiéis ao seu amor, fiéis à sua palavra, fiéis à sua liberdade comum…). E tantos outros, estritamente fiéis, tristemente fiéis, em que cada um dos dois preferiria não o ser… O problema, aqui, é menos a fidelidade do que o ciúme, menos o amor do que o sofrimento. Não é mais meu tema. Fidelidade não é compaixão. Serão duas virtudes? Sem dúvida, mas, justamente: são duas. Não fazer sofrer é uma coisa; não trair é outra, e é o que se chama fidelidade. O essencial é saber o que faz com que um casal seja um casal. O simples encontro sexual, por mais repetido que seja, não bastaria evidentemente para tanto. Mas também não a simples coabitação, por mais duradoura que seja. O casal, no sentido em que uso a palavra, supõe tanto o amor como a duração. Supõe, portanto, a fidelidade, pois o amor só dura sob a condição de prolongar a paixão (breve demais para fazer um casal, suficiente para desfazê-lo!) por memória e vontade. É o que significa o casamento, sem dúvida, e que o divórcio vem interromper. Se bem que… Uma amiga minha, divorciada, depois recasada, dizia-me que permanecia fiel, em alguma coisa, a seu primeiro marido. “Quero dizer”, explicou-me, “ao que vivemos juntos, a nossa história, a nosso amor… Não quero renegar tudo isso.” Nenhum casal, com maior razão, poderia durar sem essa fidelidade, em cada um, à sua história comum, sem esse misto de confiança e de gratidão pelo qual os casais felizes (há alguns) se tornam tão comoventes, ao envelhecer, mais até que os namorados que começam, que, na maioria dos casos, ainda não fazem mais que sonhar seu amor. Essa fidelidade me parece preciosa, mais que a outra, e mais essencial ao casal. Que o amor se aplaque ou decline, é sempre o mais provável, e é bobagem afligir-se com isso. Mas quer se separe, quer continue a viver junto, o casal só continuará sendo casal por essa fidelidade ao amor recebido e dado, ao amor partilhado e à lembrança voluntária e reconhecida desse amor. Fidelidade é amor fiel, dizia eu, e assim é também o casal, mesmo o casal “moderno”, mesmo o casal “livre”. A fidelidade é o amor conservado ao que aconteceu, o amor ao amor, no caso, amor presente (e voluntário, e voluntariamente conservado) ao amor passado. Fidelidade é amor fiel, e fiel antes de tudo ao amor. Como eu poderia jurar que sempre te amarei ou que não amarei outra pessoa? Quem pode jurar seus sentimentos? E para que, quando não há mais amor, manter a ficção, os encargos ou as exigências do amor? Mas isso não é motivo para renegar ou não reconhecer o que houve. Por que precisaríamos, para amar o presente, trair o passado? Eu juro não que sempre te amarei, mas que sempre permanecerei fiel a esse amor que vivemos. O amor infiel não é o amor livre: é o amor esquecidiço, o amor renegado, o amor que esquece ou detesta o que amou e que, portanto, se esquece ou se detesta. Mas será isso ainda amor? Ama-me enquanto desejares, meu amor; mas não nos esqueça. /André Comte-SponvillePRÊAMBULO !
Se a virtude pode ser ensinada, como creio, é mais pelo exemplo do que pelos livros. Então, para que um tratado das virtudes? Para isto, talvez: tentar compreender o que deveríamos fazer, ou ser, ou viver, e medir com isso, pelo menos intelectualmente, o caminho que daí nos separa. Tarefa modesta, tarefa insuficiente, mas necessária. Os filósofos são alunos (só os sábios são mestres), e alunos precisam de livros; é por isso que eles às vezes escrevem livros, quando os que têm à mão não os satisfazem ou sufocam. Ora, que livro é mais urgente, para cada um de nós, do que um tratado de moral? E o que é mais digno de interesse, na moral, do que as virtudes? Assim como Spinoza, não creio haver utilidade em denunciar os vícios, o mal, o pecado. Para que sempre acusar, sempre denunciar? É a moral dos tristes, e uma triste moral. Quanto ao bem, ele só existe na pluralidade irredutível das boas ações, que excedem todos os livros, e das boas disposições, também elas plurais, mas sem dúvida menos numerosas, que a tradição designa pelo nome de virtudes, isto é (este é o sentido em grego da palavra arete, que os latinos traduziram por virtus), de excelências. O que é uma virtude? É uma força que age, ou que pode agir. Assim a virtude de uma planta e de um remédio, que é tratar, de uma faca, que é cortar, ou de um homem, que é querer e agir humanamente. Esses exemplos, que vêm dos gregos, dizem suficientemente o essencial: virtude é poder, mas poder específico. A virtude do heléboro não é a da cicuta, a virtude da faca não é a da enxada, a virtude do homem não é a do tigre ou da cobra. A virtude de um ser é o que constitui seu valor, em outras palavras, sua excelência própria: a boa faca é a que corta bem, o bom remédio é o que cura bem, o bom veneno é o que mata bem... Note o leitor que, nesse primeiro sentido, que é o mais geral, as virtudes são independentes do uso que delas se faz, como do fim a que visam ou servem. A faca não tem menos virtude na mão do assassino do que na do cozinheiro, nem a planta que salva mais virtude do que a que envenena. Não, claro, que esse sentido seja privado de todo e qualquer alcance normativo: qualquer que seja a mão e na maioria dos usos, a melhor faca será a que melhor corta. Sua capacidade específica também comanda sua excelência própria. Mas essa normatividade permanece objetiva ou moralmente indiferente. À faca basta cumprir sua função, sem a julgar, e é nisso, certamente, que sua virtude não é a nossa. Uma faca excelente nas mãos de um homem mau não é menos excelente por isso. Virtude é poder, e o poder basta à virtude. Mas ao homem não. Mas à moral não. Se todo ser possui seu poder específico, em que excele ou pode exceler (assim, uma faca excelente, um remédio excelente...), perguntemo-nos qual é a excelência própria do homem. Aristóteles respondia que é o que o distingue dos animais, ou seja, a vida racional. Mas a razão não basta: também é necessário o desejo, a educação, o hábito, a memória... O desejo de um homem não é o de um cavalo, nem os desejos de um homem educado são os de um selvagem ou de um ignorante. Toda virtude é, pois, histórica, como toda a humanidade, e ambas, no homem virtuoso, sempre coincidem: a virtude de um homem é o que o faz humano, ou antes, é o poder específico que tem o homem de afirmar sua excelência própria, isto é, sua humanidade (no sentido normativo da palavra). Humano, nunca humano demais... A virtude é uma maneira de ser, explicava Aristóteles, mas adquirida e duradoura, é o que somos (logo o que podemos fazer), porque assim nos tornamos. Mas como, sem os outros homens? A virtude ocorre, assim, no cruzamento da hominização (como fato biológico) e da humanização (como exigência cultural); é nossa maneira de ser e de agir humanamente, isto é (já que a humanidade, nesse sentido, é um valor), nossa capacidade de agir bem. “Não há nada mais belo e mais legítimo do que o homem agir bem e devidamente”, dizia Montaigne. É a própria virtude. Isso, que os gregos nos ensinaram, que Montaigne nos ensinou, também pode ser lido e Spinoza: “Por virtude e poder entendo a mesma coisa, isto é, a virtude, enquanto se refere ao homem, é a própria essência ou a natureza do homem enquanto ele tem o poder de fazer certas coisas que se podem conhecer apenas pelas leis de sua natureza”; ou, eu acrescentaria, de sua história (mas esta, para Spinoza, faz parte daquela). Virtude, no sentido geral, é poder; no sentido particular, poder humano ou poder de humanidade. É o que também chamamos as virtudes morais, que fazem um homem parecer mais humano ou mais excelente, como dizia Montaigne, do que outro, e sem as quais, como dizia Spinoza, seríamos a justo título qualificados de inumanos. Isso supõe um desejo de humanidade, desejo evidentemente histórico (não há virtude natural), sem o qual qualquer moral seria impossível. Trata-se de não ser indigno do que a humanidade fez de si, e de nós. A virtude, repete-se desde Aristóteles, é uma disposição adquirida de fazer o bem. É preciso dizer mais, porém: ela é o próprio bem, em espírito e em verdade. Não o Bem absoluto, não o Bem em si, que bastaria conhecer ou aplicar. O bem não é para se contemplar, é para se fazer. Assim é a virtude: é o esforço para se portar bem, que define o bem nesse próprio esforço. Isso levanta certo número de problemas teóricos, que tratei em outra parte. Este livro pretende ser, inteiro, de moral prática, isto é, de moral. A virtude ou, antes, as virtudes (pois há várias, visto que não se poderia reduzir todas elas a uma só, nem se contentar com uma delas) são nossos valores morais, se quiserem, mas encarnados, tanto quanto quisermos, mas vividos, mas em ato. Sempre singulares, como cada um de nós, sempre plurais, como as fraquezas que elas combatem ou corrigem. São essas virtudes que tomei aqui como objeto. Se bem que minha intenção não fosse evocar todas elas, nem esgotar qualquer uma delas. Quis apenas indicar, para as que me pareciam as mais importantes, o que elas são, ou o que deveriam ser, e o que as torna sempre necessárias e sempre difíceis. Daí esse tratado, de que o título bem indica a ambição, quanto a seu objeto, e os limites, quanto a seu conteúdo. Como procedi? Perguntei-me quais eram as disposições de coração, natureza ou caráter cuja presença, num indivíduo, aumentava a estima moral que eu tinha por ele e cuja ausência, ao contrário, a diminuía. Isso proporcionou uma lista de cerca de trinta virtudes. Eliminei as que poderiam ser redundantes em relação a alguma outra (por exemplo, bondade e generosidade, ou honestidade e justiça) e, em geral, todas as que não me pareceu indispensável tratar. Restaram dezoito, isto é, muito mais do que eu pensara de início, mas não consegui suprimir mais. Tive, por isso, de ser mais breve em relação a cada uma, e essa necessidade, que fazia parte de meu projeto, não cessou de governar sua realização. Este livro se dirige ao grande público. Os filósofos profissionais podem lê-lo, contanto que não busquem nele nem erudição, nem exaustividade. O fato de este conjunto começar pela polidez, que ainda não é moral, e terminar pelo amor, que não o é mais, obviamente é deliberado. Quanto ao resto, a ordem escolhida, sem ser absolutamente contingente, deve mais a uma espécie de intuição ou exigência, ora pedagógica, ora ética ou estética, do que a alguma vontade dedutiva ou hierarquizante. Um tratado das virtudes, sobretudo pequeno como este, não é um sistema da moral, é moral aplicada, mais do que teórica, e viva, na medida do possível, mais do que especulativa. Mas o que há de mais importante na moral do que a aplicação e a vida? Citei muito, como sempre, e demais. É que eu queria fazer uma obra útil, mais do que elegante. A mesma razão me obrigava a dar todas as referências, ainda que para tanto tivesse de multiplicar as notas de rodapé. Ninguém é obrigado a lê-las – aliás, a princípio é melhor mesmo não se preocupar com elas. São feitas não para a leitura, mas para o estudo, não para os leitores, mas para os estudantes, quaisquer que sejam sua idade e sua profissão. Quanto ao fundamento, não quis fingir inventar o que a tradição me oferecia, quando eu não fazia mais que retomá-lo. Não que eu não tenha dito nada de meu neste livro, ao contrário! Mas só possuímos o que recebemos e transformamos, o que nos tornamos, graças a outros ou contra eles. Um tratado das virtudes não poderia, sem cair no ridículo, procurar a originalidade ou a novidade. De resto, há mais coragem e mais mérito em confrontar-se com os mestres, no terreno deles, do que em fugir de qualquer comparação por não sei que vontade de ineditismo. Há dois mil e quinhentos anos, para não dizer mais, os melhores espíritos refletem sobre as virtudes; quis apenas continuar seus esforços, a meu modo, com meus meios e apoiando-me neles tanto quanto necessário. Alguns julgarão essa empresa presunçosa ou ingênua. A segunda crítica é, para mim, um elogio. Quanto à primeira, temo que seja um contra-senso. Escrever sobre as virtudes seria, antes, para quem se arrisca a fazê-lo, uma perpétua ferida narcísica, porque sempre remete, e vivamente, à própria mediocridade. Toda virtude é um ápice, entre dois vícios, uma cumeada entre dois abismos: assim a coragem, entre covardia e temeridade, a dignidade, entre complacência e egoísmo, ou a doçura, entre cólera e apatia... Mas quem pode viver sempre no ápice? Pensar as virtudes é medir a distância que nos separa delas. Pensar sua excelência é pensar nossas insuficiências ou nossa miséria. É um primeiro passo, e talvez o único que se possa exigir de um livro. O resto é para ser vivido, e como um livro poderia substituir o viver? Isso não significa que ele seja sempre inútil, ou moralmente sem alcance. A reflexão sobre as virtudes não torna ninguém virtuoso; em todo caso é evidente que não poderia bastar para tanto. Todavia há às vezes uma virtude que ela desenvolve: a humildade, tanto intelectual, diante da riqueza da matéria e da tradição, quanto propriamente moral, diante da evidência de que essas virtudes nos fazem falta, quase todas, quase sempre, e de que, entretanto, não poderíamos nos resignar à sua ausência nem nos isentar de sua fraqueza, que é a nossa. Este tratado das virtudes só será útil para os que não as têm, e isso, que lhe dá um público vastíssimo, deve desculpar o autor por ser ousado – não apesar de sua indignidade, mas por causa dela – empreendê-lo. O prazer que tive, e que foi intenso, pareceu-me uma justificativa suficiente. Quanto ao prazer dos leitores, ele só poderá vir, se vier, por acréscimo: já não é trabalho, mas graça. A eles, pois, minha gratidão. /André Comte-Sponville A POLIDEZ !
A polidez é a primeira virtude e, quem sabe, a origem de todas. É também a mais pobre, a mais superficial, a mais discutível. Será apenas uma virtude? Pequena virtude, em todo caso, como se diz das damas de mesmo nome. A polidez faz pouco caso da moral, e a moral da polidez. Um nazista polido em que altera o nazismo? Em que altera o horror? Em nada, é claro, e a polidez está bem caracterizada por esse nada. Virtude puramente formal, virtude de etiqueta, virtude de aparato! A aparência, pois, de uma virtude, e somente a aparência. Se a polidez é um valor, o que não se pode negar, é um valor ambíguo, em si insuficiente – pode encobrir tanto o melhor, como o pior – e, como tal, quase suspeito. Esse trabalho sobre a forma deve ocultar alguma coisa, mas o quê? É um artifício, e desconfiamos dos artifícios. É um enfeite, e desconfiamos dos enfeites. Diderot evoca em algum lugar a “polidez insultante” dos grandes, e também deveríamos evocar aquela, obsequiosa ou servil, de muitos pequenos. Seriam preferíveis o desprezo sem frases e a obediência sem mesuras. Há pior. Um canalha polido não é menos ignóbil que outro, talvez seja até mais. Por causa da hipocrisia? É duvidoso, porque a polidez não tem pretensões morais. O canalha polido poderia facilmente ser cínico, aliás, sem por isso faltar nem com a polidez nem com a maldade. Mas, então, por que ele choca? Pelo contraste? Sem dúvida. Mas não há contraste entre a aparência de uma virtude e sua ausência (o que seria a hipocrisia), pois nosso canalha, por hipótese, é efetivamente polido – de resto, quem o parece o é suficientemente. Contraste, muito mais, entre a aparência de uma virtude (que também é, no caso da polidez, sua realidade: o ser da polidez se esgota inteiro em seu aparecer) e a ausência de todas as outras, entre a aparência de uma virtude e a presença de vícios, ou antes, do único real, que é a maldade. Contudo, o contraste, considerado isoladamente, é mais estético do que moral; ele explicaria mais a surpresa do que o horror, mais o espanto do que a reprovação. A isso se acrescenta o seguinte, parece-me, que é de ordem ética: a polidez torna o mau mais odiável porque denota nele uma educação sem a qual sua maldade, de certa forma, seria desculpável. O canalha polido é o contrário de uma fera, e ninguém quer mal às feras. É o contrário de um selvagem, e os selvagens são desculpados. É o contrário de um bruto crasso, grosseiro, inculto, que decerto é assustador, mas cuja violência nativa e bitolada pelo menos poderia ser explicada pela incultura. O canalha polido não é uma fera, não é um selvagem, não é um bruto; ao contrário, é civilizado, educado, bem-criado e, com isso, dir-se-ia, não tem desculpa. Quem pode saber se o grosseirão agressivo é mau ou simplesmente mal-educado? No caso do torturador seleto, ao contrário, não há dúvida. Como o sangue se vê melhor nas luvas brancas, o horror se mostra melhor quando é cortês. Pelo que se relata, os nazistas, pelo menos alguns deles, distinguiam-se nesse papel. E todos compreendem que uma parte da ignomínia alemã esteve nisso, nessa mistura de barbárie e civilização, de violência e civilidade, nessa crueldade ora polida, ora bestial, mas sempre cruel, e mais culpada talvez por ser polida, mais desumana por ser humana nas formas, mais bárbara por ser civilizada. Um ser grosseiro, podemos acusar seu lado animal, a ignorância, a incultura, pôr a culpa numa infância devastada ou no fracasso de uma sociedade. Um ser polido, não. A polidez é, nesse sentido, como que uma circunstância agravante, que acusa diretamente o homem, o povo ou o indivíduo, e a sociedade, não em seus fracassos, que poderiam servir de desculpa, mas em seus sucessos. Bem-educado, diz-se – e, de fato, é dizer tudo. O nazismo como êxito da sociedade alemã (Jankélévitch acrescentaria: e da cultura alemã, mas só ele, talvez, ou seus contemporâneos podiam permitir-se tal coisa), eis o que julga tanto o nazismo como a Alemanha, que tocava Beethoven nos lager e assassinava as criancinhas! Estou digressando, porém é mais por vigilância do que por descuido. Diante da polidez, o importante antes de tudo é não se deixar enganar. A polidez não é uma virtude, e não poderia fazer as vezes de nenhuma. Por que dizer então que ela é a primeira, e talvez a origem de todas? É menos contraditório do que parece. A origem das virtudes não poderia ser uma (pois, nesse caso, esta mesma suporia uma origem e origem não poderia ser), e talvez seja próprio da essência das virtudes a primeira delas não ser virtuosa. Por que primeira? Falo segundo a ordem do tempo e para o indivíduo. O recém-nascido não tem moral, nem pode ter. Tampouco o bebê e, por um bom tempo, a criança. O que esta descobre, em compensação, e bem cedo, são as proibições. “Não faça isso: é sujo, é ruim, é feio, é maldade...” Ou: “É perigoso”, e a criança logo saberá diferenciar entre o que é mau (o erro) e o que faz mal (o perigo). O erro é o mal propriamente humano, o mal que não faz mal (pelo menos a quem o faz), o mal sem perigo imediato ou intrínseco. Mas então por que proibi-lo? Porque é assim, porque é sujo, feio, maldade... O fato precede o direito, para a criança, ou antes, o direito é apenas um fato como outro qualquer. Há o que é permitido e o que é proibido, o que se faz e o que não se faz. Bem? Mal? A regra basta, ela precede o julgamento e o funda. Mas a regra é, então, desprovida de outro fundamento além da convenção, de outra justificação além do uso e do respeito aos usos – regra de fato, regra puramente formal, regra de polidez! Não dizer palavrões, não interromper as pessoas, não empurrá-las, não roubar, não mentir... Todas essas proibições se apresentam identicamente para a criança (“é feio”). A distinção entre o que é ético e o que é estético só virá mais tarde, e progressivamente. Portanto, a polidez é anterior à moral ou, antes, a moral a princípio é apenas polidez: submissão ao uso (os sociólogos têm razão nesse ponto contra Kant, pelo menos têm razão de início, coisa que Kant provavelmente não contestaria), à regra instituída, ao jogo normatizado das aparências – submissão ao mundo e às maneiras do mundo. Não se poderia, diz Kant, deduzir o que se deve fazer do que se faz. No entanto é a isso que a criança é obrigada, durante seus primeiros anos, e é unicamente por isso que ela se torna humana. “O homem só pode tornar-se homem pela educação”, reconhece por sinal Kant, “ele é apenas o que a educação faz dele”, e é a disciplina que primeiro “transforma a animalidade em humanidade”. Não poderíamos dizer melhor. O uso é anterior ao valor, a obediência ao respeito, e a imitação ao dever. A polidez, por conseguinte (“isso não se faz”), é anterior à moral (“isso não se deve fazer”), a qual só se constituirá pouco a pouco, como uma polidez interiorizada, livre de aparências e de interesses, toda concentrada na intenção (com a qual a polidez nada tem a ver). Mas como essa moral emergiria, se a polidez não fosse dada primeiro? As boas maneiras precedem as boas ações e levam a estas. A moral é como uma polidez da alma, um saber viver de si para consigo (ainda que se trate, sobretudo, do outro), uma etiqueta da vida interior, um código de nossos deveres, um cerimonial do essencial. Inversamente, a polidez é como uma moral do corpo, uma ética do comportamento, um código da vida social, um cerimonial do essencial. “Moeda de papel”, diz Kant, mas que é melhor do que nada e que seria tão louco suprimir quanto tomar por ouro verdadeiro; uns “trocados”, diz ele também, que não passam de aparência de virtude, mas que a tornam amável. E que criança se tornaria virtuosa sem essa aparência e essa amabilidade? A moral começa, pois, no ponto mais baixo – pela polidez -, e de algum modo tem de começar. Nenhuma virtude é natural; logo é preciso tornar-se virtuoso. Mas como, se já não somos? “As coisas que é preciso ter aprendido para fazê-las”, explicava Aristóteles, “é fazendo que aprendemos.” Como fazê-las, porém, sem as ter aprendido? Há um círculo vicioso aqui, do qual só podemos sair pelo a priori ou pela polidez. Mas o a priori não está a nosso alcance, a polidez sim. “É praticando as ações justas que nos tornamos justos”, continuava Aristóteles, “praticando as ações moderadas que nos tornamos moderados e praticando as ações corajosas que nos tornamos corajosos.” Mas como agir justamente sem ser justo? Com moderação sem ser moderado? Com coragem sem ser corajoso? E como, então, vir a sê-lo? Pelo hábito, parece responder Aristóteles, mas a resposta é evidentemente insuficiente: o hábito supõe a existência antecedente daquilo a que nos habituamos e, portanto, não poderia explicá-lo. Kant nos esclarece melhor, ao explicar esses primeiros simulacros da virtude pela disciplina, isto é, por uma coerção externa: o que a criança, por falta de instinto, não pode fazer por si mesma, “é preciso que outros façam por ela”, e é assim que “uma geração educa outra”. Sem dúvida. Ora, o que é essa disciplina na família, senão, antes de tudo, o respeito dos usos e das boas maneiras? Disciplina normativa mais do que coerciva, que visa menos à ordem do que a certa sociabilidade amável – disciplina não de polícia, mas de polidez. É por ela que, imitando as maneiras da virtude, talvez tenhamos uma oportunidade de virmos a ser virtuosos. “A polidez”, observava La Bruyère, “nem sempre inspira a bondade, a eqüidade, a complacência, a gratidão; pelo menos dá uma aparência disso e faz o homem parecer por fora como deveria ser por dentro.” Por isso ela é insuficiente no adulto e necessária na criança. É apenas um começo, mas o é. Dizer “por favor” ou “desculpe” é simular respeito; dizer “obrigado” é simular reconhecimento. É aí que começam o respeito e o reconhecimento. Como a natureza imita a arte, assim a moral imita a polidez, que a imita. “É inútil falar de dever com as crianças”, reconhecia Kant, e evidentemente tinha razão. Mas quem renunciaria, por isso, a lhes ensinar a polidez? E que teríamos aprendido, sem ela, sobre nossos deveres? Se podemos nos tornar morais – e temos de nos tornar, para que a moral, e mesmo a imoralidade, sejam simplesmente possíveis -, não é por virtude mas por educação, não pelo bem mas pela forma, não por moral mas por polidez – por respeito, não dos valores, mas dos usos! A moral é, em primeiro lugar, um artifício, depois um artefato. É imitando a virtude que nos tornamos virtuosos: “Pelo fato de os homens representarem esses papéis”, escreve Kant, “as virtudes, das quais por muito tempo eles só tomam a aparência concertada, despertam pouco a pouco e incorporam-se a seu modos.” A polidez é anterior à moral, e a permite. “Ostentação”, diz Kant, mas moralizadora. Trata-se, primeiro, de assumir “os modos do bem”, não, claro, para contentar-se com eles, mas para alcançar, por meio deles, o que eles imitam – a virtude – e que só advém imitando-os. “A aparência do bem nos outros”, escreve ainda Kant, “não é desprovida de valor para nós: desse jogo de dissimulações, que suscita o respeito sem talvez merecê-lo, pode nascer a seriedade”, sem a qual a moral não poderia se transmitir nem se constituir em cada um. “As disposições morais provêm de atos que lhes são semelhantes”, dizia Aristóteles. A polidez é essa aparência de virtude, de que as virtudes provêm. Portanto, a polidez salva a moral do círculo vicioso (sem a polidez, seria necessário ser virtuoso para poder tornar-se virtuoso) criando as condições necessárias para seu surgimento e, mesmo, em parte, para seu pleno desenvolvimento. Entre um homem perfeitamente polido e um homem simplesmente benevolente, respeitador, modesto..., as diferenças, em muitas ocasiões, são ínfimas: acabamos nos parecendo com o que imitamos, e a polidez leva pouco a pouco – ou pode levar – à moral. Todos os pais sabem disso, e é o que chamam educar seus filhos. Sei muito bem que a polidez não é tudo, nem o essencial. No entanto, o fato é que ser bem-educado, na linguagem corrente, é antes de tudo ser polido, o que já diz muito sobre a polidez. Repreender os filhos mil vezes (o que estou dizendo, mil vezes!: muito mais...) para que digam “por favor”, “obrigado”, “desculpe” é coisa que nenhum de nós faria – salvo algum maníaco ou esnobe -, se se tratasse apenas de polidez. Mas o respeito se aprende assim, com esse treinamento. A palavra é desagradável, sei bem, mas quem poderia dispensar a coisa? O amor não basta para educar os filhos, nem mesmo para torná-los amáveis e amantes. A polidez também não basta, é por isso que um e outra são necessários. Toda a educação familiar situa-se aí, parece-me, entre a menor das virtudes, que ainda não é moral, e a maior, que já não é. Resta o aprendizado da língua. Mas, se a polidez é a arte dos signos, como queria Alain, aprender a falar decorre dela. É sempre uso e respeito do uso, que só é bom se respeitado. “O bom uso” poderia ser o título de um manual da arte de bem viver, e é o de uma gramática (a de Grevisse), famosa e bela. Fazer o que se faz, dizer o que se diz... É revelador que se fale em ambos os casos de correção, que nada mais é que uma polidez mínima e como que obrigatória. A virtude ou o estilo só virão mais tarde. Portanto, a polidez não é uma virtude, mas como que o simulacro que a imita (nos adultos) ou que a prepara (nas crianças). Assim, ela muda com a idade, se não de natureza, pelo menos de alcance. Essencial durante a infância, inessencial na idade adulta. O que há de pior do que uma criança mal-educada, senão um adulto ruim? Ora, não somos mais crianças. Sabemos amar, julgar, querer... Capazes de virtude, pois capazes de amor, que a polidez não poderia substituir. Um grosseirão generoso sempre será melhor do que um egoísta polido; um homem honesto descortês melhor do que um crápula refinado. A polidez nada mais é que uma ginástica de expressão, dizia Alain; é dizer claramente que ela pertence ao corpo, e, é claro, o coração ou a alma é que prevalecem. Inclusive, há pessoas em que a polidez incomoda, por causa de uma perfeição que inquieta. “Polido demais para ser honesto”, diz-se então, pois a honestidade às vezes impõe ser desagradável, chocar, trombar. Mesmo honestos, aliás, muitos ficarão a vida toda como que prisioneiros de suas boas maneiras, só se mostrando aos outros através da vidraça – nunca totalmente transparente – da polidez, como se tivessem confundido de uma vez por todas a verdade e o decoro. No estilo certinho, como se diz hoje em dia, há muito disso. A polidez, se levada por demais a sério, é o contrário da autenticidade. Os certinhos são como crianças grandes bem-comportadas demais, prisioneiras das regras, enganadas quanto aos usos e às conveniências. Faltou-lhes a adolescência, graças à qual nos tornamos homem ou mulher – a adolescência que remete a polidez ao irrisório que lhe é próprio, a adolescência que está pouco ligando para os usos, a adolescência que só ama o amor, a verdade e a virtude, a bela, a maravilhosa, a incivil adolescência! Adultos, eles serão mais indulgentes e mais sensatos. Mas, enfim, se é absolutamente necessário escolher, e imaturidade por imaturidade, é melhor, moralmente falando, um adolescente prolongado do que uma criança obediente demais para crescer – é melhor ser honesto demais para ser polido do que polido demais para ser honesto! O saber-viver não é a vida; a polidez não é a moral. Mas não quer dizer que não seja nada. A polidez é uma pequena coisa, que prepara grandes coisas. É um ritual, mas sem Deus; um cerimonial, mas sem culto; uma etiqueta, mas sem monarca. Forma vazia, que só vale por esse próprio vazio. Uma polidez cheia de si, uma polidez que se leva a sério, uma polidez que crê em si é uma polidez iludida por suas maneiras e que falta, por isso, às regras que ela mesma prescreve. A polidez não é suficiente, e é impolido ser suficiente. A polidez não é uma virtude, mas uma qualidade, e uma qualidade apenas formal. Considerada em si, é secundária, irrisória, quase insignificante; ao lado da virtude ou da inteligência, é como que nada, e é o que ela, em sua fina reserva, também deve saber exprimir. Que os seres inteligentes e virtuosos não sejam dispensados dela, é mais do que claro. O próprio amor não poderia prescindir totalmente das formas. É o que as crianças devem aprender com seus pais, com esses pais que as amam tanto – embora demais, embora mal – e que, no entanto, não cessam de repreendê-las, não quanto ao fundo (quem ousaria dizer a seu filho: “Você não me ama o suficiente”?), mas quanto à forma. Os filósofos discutirão para saber se a forma primeira, na verdade, não é o todo e se o que distingue a moral da polidez é algo mais que uma ilusão. Pode ser que tudo não seja mais que uso e respeito do uso – que tudo não seja mais que polidez. Não creio, porém. O amor resiste, e a doçura, e a compaixão. A polidez não é tudo, é quase nada. Mas o homem, também, é quase um animal. /André Comte-SponvilleA PRUDÊNCIA !
A polidez é a origem das virtudes; a fidelidade, seu princípio; a prudência, sua condição. Será ela mesma uma virtude? A tradição responde que sim, e é o que cumpre explicar em primeiro lugar. A prudência é uma das quatro virtudes cardeais da Antiguidade e da Idade Média. É a mais esquecida, talvez. Para os modernos pertence menos à moral do que à psicologia, menos ao dever do que ao cálculo. Kant já não via nela uma virtude: é apenas amor a si esclarecido ou hábil, explicava, não condenável, decerto, mas sem valor moral e sem outras prescrições que não sejam hipotéticas. É prudente cuidar da saúde, mas quem veria nisso um mérito? A prudência é vantajosa demais para ser moral; o dever, absoluto demais para ser prudente. No entanto, não é seguro que Kant seja aqui o mais moderno, nem o mais justo. Porque ele concluía que a veracidade é um dever absoluto, em todas as circunstâncias (inclusive – é o exemplo que dava – quando assassinos perguntam a você se seu amigo, que eles perseguem, está refugiado em sua casa) e quaisquer que sejam suas conseqüências: é melhor faltar com a prudência do que faltar com seu dever, nem que seja para salvar um inocente ou a si mesmo! É o que não podemos mais aceitar, parece-me, por não acreditarmos muito nesse absoluto para sacrificar a ele nossa vida, nossos amigos ou nossos semelhantes. Essa ética da convicção, como dirá Max Weber, até nos apavoraria: o que vale o caráter absoluto dos princípios, se é em detrimento da simples humanidade, do bom senso, da doçura, da compaixão? Aprendemos a desconfiar também da moral, tanto mais quanto ela se crê mais absoluta. À ética da convicção, preferiremos o que Max Weber chama de ética da responsabilidade, a qual, sem renunciar aos princípios (como poderia?) também se preocupa com as conseqüências previsíveis da ação. Uma boa intenção pode levar a catástrofes, e a pureza dos móbeis, ainda que confirmada, nunca bastou para impedir o pior; portanto seria condenável contentar-se com ela. A ética da responsabilidade quer que respondamos não apenas por nossas intenções ou nossos princípios, mas também pelas conseqüências de nossos atos, tanto quanto possamos prevê-las. É uma ética da prudência, e a única ética válida. Melhor é mentir à Gestapo do que lhe entregar um judeu ou um resistente. Em nome de quê? Em nome da prudência, que é a justa determinação (para o homem, pelo homem) desse melhor. É a moral aplicada, e o que seria uma moral que não se aplicasse? As outras virtudes, sem a prudência, não poderiam mais que revestir o Inferno com suas boas intenções. Mas eu estava falando dos antigos. É que a palavra prudência é demasiado carregada de história para não estar sujeita a equívocos; e, de resto, ela quase desapareceu do vocabulário moral contemporâneo. O que não significa que não precisemos mais da coisa. Examinemos com maior cuidado o problema. Sabemos que os latinos traduziram por prudentia a phronésis dos gregos e, especialmente, de Aristóteles ou dos estóicos. De que se trata? De uma virtude intelectual, explicava Aristóteles, pelo fato de haver-se com o verdadeiro, com o conhecimento, com a razão: a prudência é a disposição que permite deliberar corretamente sobre o que é bom ou mau para o homem (não em si, mas no mundo tal como é, não em geral, mas em determinada situação) e agir em conseqüência, como convier. É o que poderíamos chamar de bom senso, mas que estaria a serviço de uma boa vontade. Ou de inteligência, mas que seria virtuosa. É nisso que a prudência condiciona todas as outras virtudes; nenhuma, sem ela, saberia o que se deve fazer, nem como chegar ao fim (o bem) que ela visa. Santo Tomás bem mostrou que, das quatro virtudes cardeais, a prudência é a que deve reger as outras três: a temperança, a coragem e a justiça, sem ela, não saberiam o que se deve fazer, nem como; seriam virtudes cegas ou indeterminadas (o justo amaria a justiça sem saber como, na prática, realizá-la, o corajoso não saberia o que fazer de sua coragem, etc.), assim como a prudência, sem elas, seria vazia ou não seria mais que habilidade. A prudência tem algo de modesto ou de instrumental; ela se põe a serviço de fins que não são os seus e só se ocupa com a escolha dos meios. Mas é isso que a torna insubstituível: nenhuma ação, nenhuma virtude – em todo caso, nenhuma virtude em ato – poderia prescindir dela. A prudência não reina (mais vale a justiça, mais vale o amor), mas governa. Ora, que seria um reino sem governo? Não basta amar a justiça para ser justo, nem amar a paz para ser pacífico; é preciso, além disso, a boa deliberação, a boa decisão, a boa ação. A prudência decide e a coragem provê. Os estóicos consideravam a prudência uma ciência (“a ciência das coisas a fazer e a não fazer”, diziam eles), o que Aristóteles recusara legitimamente, pois só há ciência do necessário e prudência do contingente. A prudência supõe a incerteza, o risco, o acaso, o desconhecido. Um deus não a necessitaria; mas como um homem poderia prescindir dela? A prudência não é uma ciência; ela é o que faz as suas vezes quando a ciência falta. Só se delibera quando se tem escolha, em outras palavras, quando nenhuma demonstração é possível ou suficiente. É então que é necessário querer não apenas o bom fim, mas os bons meios que conduzem a ele! Não basta amar os filhos para ser bom pai, nem querer o bem deles para fazê-lo. Amar, diria o humorista, não dispensa ninguém de ser inteligente. Os gregos o sabiam, e talvez melhor do que nós. A phronésis é como que uma sabedoria prática, sabedoria da ação, para a ação, na ação. No entanto, ela não faz as vezes de sabedoria (de verdadeira sabedoria: Sophia), porque tampouco basta agir bem para viver bem, ou ser virtuoso para ser feliz. Aristóteles tem razão, aqui, contra quase todos os antigos: a virtude não basta mais à felicidade do que a felicidade à virtude. A prudência é, porém, necessária a uma e à outra, e a própria sabedoria não poderia prescindir dela. Sabedoria sem prudência seria sabedoria louca, e não seria sabedoria. Epicuro talvez diga o essencial: a prudência, que escolhe (pela “comparação e pelo exame das vantagens e desvantagens”) os desejos que convém satisfazer e os meios para satisfazê-los, é “mais preciosa até que a filosofia” e é dela que “provêm todas as outras virtudes”. Que importa o verdadeiro, se não sabemos viver? Que importa a justiça, se somos incapazes de agir justamente? E por que iríamos querê-la, se ela não nos trouxesse nada? A prudência é como um saber-viver real (e não simplesmente aparente, como a polidez), que também seria uma arte de desfrutar. Ocorre-nos recusar numerosos prazeres, explica Epicuro, quando devem acarretar maior desprazer, ou buscar determinada dor, se ela permitir evitar dores piores ou obter um prazer mais vivo ou mais duradouro. Assim, é sempre pelo prazer que vamos, por exemplo, ao dentista ou ao trabalho, mas por um prazer no mais das vezes posterior ou indireto (pela evitação ou pela supressão de uma dor), que a prudência prevê ou calcula. Virtude temporal, sempre, e temporizadora, às vezes. É que a prudência leva em conta o futuro, na medida em que depende de nós encará-lo (nisso ela pertence não à esperança, mas à vontade). Virtude presente, pois, como toda virtude, mas previsora ou antecipadora. O homem prudente é atento, não apenas ao que acontece, mas ao que pode acontecer; é atento, e presta atenção. Prudentia, observava Cícero, vem de providere, que significa tanto prever como prover. Virtude da duração, do futuro incerto, do momento favorável (o kairós dos gregos), virtude de paciência e de antecipação. Não se pode viver no instante. Não se pode chegar sempre ao prazer pelo caminho mais curto. O real impõe sua lei, seus obstáculos, seus desvios. A prudência é a arte de levar isso tudo em conta, é o desejo lúcido e razoável. Os românticos, por preferirem os sonhos, torcerão o nariz. Os homens de ação sabem, ao contrário, que não há outro caminho, mesmo para realizar o improvável ou o excepcional. A prudência é o que separa a ação do impulso, o herói do desmiolado. No fundo, é o que Freud chamará de princípio da realidade, ou pelo menos a virtude que lhe corresponde: trata-se de desfrutar o mais possível, de sofrer o menos possível, mas levando em conta as imposições e incertezas do real, em outras palavras (tornamos a encontrar a virtude intelectual de Aristóteles), inteligentemente. Assim, no homem, a prudência faz as vezes do que é, nos animais, o instinto – e, dizia Cícero, do que é, nos deuses, a providência. A prudência dos antigos (phronésis, prudentia) vai, portanto, bem além da simples evitação dos perigos, a que a nossa praticamente se reduz. As duas, no entanto, estão ligadas, e esta, de fato, aos olhos de Aristóteles ou de Epicuro, pertenceria ao domínio daquela. A prudência determina o que é necessário escolher e o que é necessário evitar. Ora, o perigo pertence, na maioria dos casos, a esta última categoria; daí a prudência, no sentido moderno do termo (a prudência como precaução). Todavia, há riscos que é necessário correr, perigos que é preciso enfrentar; daí a prudência, no sentido antigo (a prudência como “virtude do risco e da decisão”). A primeira, longe de abolir a segunda, depende dela. A prudência não é nem o medo nem a covardia. Sem a coragem, ela seria apenas pusilânime, assim como a coragem, sem ela, seria apenas temeridade ou loucura. Cumpre observar, aliás, que, mesmo em seu sentido restrito e moderno, a prudência continua a condicionar a virtude. Somente os vivos são virtuosos ou podem sê-lo (os mortos, no máximo, podem ter sido); somente os prudentes são vivos, ou o permanecem. Uma imprudência absoluta seria mortal, sempre, em prazos brevíssimos. Que restaria da virtude? E como ela poderia advir? Eu notava, a propósito da polidez, que a criança a princípio não diferencia o que é mau (o erro) do que faz mal (a dor, o perigo). Por isso ela não distingue a moral da prudência, ambas aliás submetidas, no essencial e por muito tempo, à palavra ou ao poder dos pais. Mas já crescemos (graças à prudência de nossos pais, depois à nossa); agora, essa distinção se impõe a nós, de modo que moral e prudência se constituem diferenciando-se. Confundi-las de maneira absoluta seria um erro; mas sempre as opor seria outro. A prudência aconselha, notava Kant, a moral comanda. Portanto, precisamos de uma e de outra, solidariamente. A prudência só é uma virtude quando a serviço de um fim estimável (de outro modo, não seria mais que habilidade), assim como esse fim só é completamente virtuoso quando servido por meios adequados (de outro modo, não seria mais que bons sentimentos). Por isso, dizia Aristóteles, “não é possível ser homem de bem sem prudência, nem prudente sem virtude moral”. A prudência não basta à virtude (pois ela só delibera sobre os meios, quando a virtude também se prende à consideração dos fins), mas nenhuma virtude poderia prescindir da prudência. O motorista imprudente não é apenas perigoso, também é – pelo pouco caso que faz da vida alheia – moralmente condenável. Inversamente, quem não vê que o sexo seguro, que nada mais é que uma sexualidade prudente, também pode ser uma disposição moral (pela atenção que um manifesta, mesmo que já esteja doente, pela saúde do outro)? Entre adultos que consentem, a sexualidade mais livre não é um erro. Mas a imprudência é. Nesses tempos de AIDS, comportamentos que, em si, não seriam em nada condenáveis podem vir a sê-lo, não pelos prazeres que proporcionam, e que são inocentes, mas pelos riscos que ocasionam ou fazem o outro correr. Sexualidade sem prudência é sexualidade sem virtude, ou cuja virtude, em todo caso, é deficiente. Isso pode ser encontrado em todos os domínios. O pai imprudente, diante de seus filhos, pode muito bem amá-los e querer sua felicidade. No entanto, falta alguma coisa à sua virtude de pai e, sem dúvida, a seu amor. Se ocorrer um drama, que ele poderia ter evitado, ele saberá que, sem ser absolutamente responsável pelo ocorrido, também não é de todo inocente. Primeiro, não prejudicar. Depois, proteger. É a própria prudência, sem a qual qualquer virtude seria impotente ou nefasta. Eu já disse que a prudência não impede o risco e nem sempre evita o perigo. Veja o alpinista ou o navegador: a prudência faz parte de seu ofício. Que risco? Que perigo? Em que limites? Com que fim? O princípio de prazer o determina, e é isso que chamamos de desejo ou amor. Como? Por que meios? Com que precauções? O princípio de realidade o decide e – quando decide da melhor maneira possível – é o que chamamos prudência. “A prudência”, dizia santo Agostinho, “é um amor que escolhe com sagacidade.” Mas o que ela escolhe? Não, decerto, seu objeto (o desejo se encarrega disso), mas os meios de alcançá-lo ou protegê-lo. Sagacidade das mães e das amantes, sabedoria do amor louco. Elas fazem o que se deve, como se deve, pelo menos o que elas julgam como tal (quem diz virtude intelectual diz risco de erro), e dessa preocupação nasceu a humanidade – a delas, a nossa. O amor as guia; a prudência as ilumina. Que ela possa iluminar também a própria humanidade! Vimos que a prudência levava em conta o futuro: é que seria perigoso e imoral esquecê-lo. A prudência é essa paradoxal memória do futuro ou, para dizer melhor (pois que a memória, enquanto tal, não é uma virtude), essa paradoxal e necessária fidelidade ao futuro. Os pais sabem disso e querem preservar o futuro de seus filhos – não para escrevê-lo no lugar deles, mas para deixar-lhes o direito e, se possível, dar-lhes os meios de eles próprios o escreverem. A humanidade também deverá compreendê-lo, se quiser preservar os direitos e as oportunidades de uma humanidade futura. Mais poder, maiores responsabilidades. A nossa nunca foi tão pesada; ela põe em jogo não apenas nossa existência ou a de nossos filhos, mas (devido aos progressos técnicos e seu temível alcance) a da humanidade inteira, e pelos séculos dos séculos… A ecologia, por exemplo, está ligada à prudência, e é por isso que tem pontos de contato com a moral. Enganar-se-ia quem acreditasse a prudência superada; ela é a mais moderna de nossas virtudes, ou antes aquela de nossas virtudes que a modernidade torna mais necessária. Moral aplicada, dizia eu, e nos dois sentidos do termo: é o contrário de uma moral abstrata ou teórica, mas o contrário também de uma moral negligente. O fato de esta última noção ser contraditória deixa claro quanto a prudência é necessária, inclusive para proteger a moral do fanatismo (sempre imprudente, de tanto entusiasmo) e de si mesma. Quantos horrores consumados em nome do Bem? Quantos crimes, em nome da virtude? Era pecar contra a tolerância, quase sempre, mas também contra a prudência, na maioria das vezes. Desconfiemos desses Savonarola* que o Bem cega. Demasiado apegados aos princípios para considerar os indivíduos, demasiado seguros de suas intenções para se preocuparem com as conseqüências… Moral sem prudência é moral vã ou perigosa. “Caute”, dizia Spinoza: “Cuidado.” É a máxima da prudência, e é preciso ter cuidado também com a moral, quando ela despreza seus limites ou suas incertezas. A boa vontade não é uma garantia, nem a boa consciência uma desculpa. Em suma, a moral não basta à virtude; são necessárias também a inteligência e a lucidez. É o que o humor recorda e a prudência prescreve. É imprudente ouvir apenas a moral, e é imoral ser imprudente. /André Comte-SponvilleAS FALSIFICAÇÕES NO BRASIL !
A TV DE ALTA DEFINIÇÃO NÃO É FRACASSO !Correm pela internet muitos e-mails, colocando a implantação do HDTV, a TV de alta definição, como um fracasso no Brasil. Mas não é verdade. O HDTV não é fracasso nenhum, é uma beleza, é uma maravilha, funciona bem, é algo bom de se ver e está se tornando cada vez melhor, sendo ajustada dia-a-dia. Estou falando em qualidade tecnológica, não necessariamente a conteúdo de programação. O que aconteceu é que muitos espertalhões quiseram se aproveitar do momento para extorquir a população, em São Paulo, onde ela foi lançada primeiro, em dezembro de 2007, cobrando valores absurdos pelos equipamentos conversores, chamados "set top box". Lojistas chegaram a fazer lobbys, na região da Santa Ifigênia em São Paulo, que é o maior centro de eletrônica do País, para que equipamentos não fossem vendidos a menos de 800 reais. A ordem era meter a mão mesmo. Felizmente o povo paulistano não foi bobo e deu uma boa resposta, num modelo que todo brasileiro deve copiar. Boicotou, pra valer, não se deixou levar pela empolgação e sair comprando, comprando e comprando. Os espertalhões quebraram a cara, ficaram sem saber onde enfiar os seus estoques, insistiram em não baixar os preços e o povo insistiu em não comprar. Que bom seria se o brasileiro fizesse assim sempre. No começo foi mesmo um fracasso, porque o número de pessoas que adquiriram a novidade, por conta disto, foi muito aquém do que esperava o governo e as emissoras de televisão. Acontece que agora a coisa se normalizou, depois de um ano. O conversor barateou, existem várias opções em preços bem mais acessíveis, e muita gente já está comprando. Tem um detalhe: Não foi implantado ainda o tal GINGA, que é o sistema que proporciona a interatividade do sistema, aquela idéia que permite ao telespectador votar, dar opinião, comprar e participar do programa, ao vivo, quando ele está sendo apresentado. Mas é questão de tempo. Eu não entendo o porquê disto estar demorando tanto assim, já que funciona bem em outros países, mas daí a considerar como fracasso, não tem sentido. O HDTV vale a pena, sim, e eu recomendo aos meus amigos, caso queiram melhorar a televisão da sua casa e possuem condições para isto, que adquiram os equipamentos. Apenas coloco, em nível de sugestão, a aqueles que me perguntam sempre sobre qual tipo de televisor devem adquirir: Se você puder comprar um FULL HD, aquele que tem resolução de 1920x1080 é bem melhor. Custa um pouco mais, sim, mas, a partir do momento que você ver um filme ou uma produção qualquer feita em BLUE RAY, que é o novo modelo de DVD, você vai saber porque estou indicando isto. O Blue Ray ainda está um pouco caro, mas a tendência é também baixar os preços e todo mundo vai ter em casa, do mesmo jeito que mudaram do velho VHS para os DVDs que todos nós conhecemos. Vale lembrar, também, que o seu velho televisor nunca será um HDTV, com a simples compra de um set top box, como quis fazer crer o governo, no início. Ele apenas terá uma melhora de imagem e nada mais. Para ser HDTV tem que ser um televisor, destes modernos, que já foram fabricados para isto, com alta resolução.
CELULARES 3G
Cuidado com as propostas de celulares 3G - Tem operadoras aí, fazendo uma propaganda enorme da tecnologia 3G que, de fato, é uma beleza. Mas no exterior. Aqui ainda não está funcionando bem em todos os lugares, como eles querem que o povo entenda. Em pouquíssimas regiões o 3G está funcionando, mas pouquíssimas mesmo. Em São Paulo, capital, que é o principal ponto do Brasil, ele não funciona bem em todas as localidades, imagine nas outras cidades, principalmente do interior. Só que as operadoras omitem isto, os vendedores das lojas parecem um monte de analfabetos que nada sabem sobre o assunto e só querem vender, vender e vender. Você é que se dane. Todo cuidado é pouco.
VAMOS AOS FATOS;
Se cada um de nós fizermos a nossa parte, este país toma vergonha na cara. Se ficarmos achando que somos apenas uma gota dágua no oceano ou uma voz que clama do deserto, tudo vai continuar como está e o futuro do Brasil será o pior possível. Mais uma vez a nossa imprensa mostra, em rede nacional, um lamentável flagrante de falsificação de gasolina. Agora vejam os detalhes: Em São Paulo, houve uma denúncia anônima, a imprensa, juntamente com autoridades da área, se preparou com câmeras escondidas, filmaram com antecedência o local onde ficavam os tanques com os solventes que eram misturados na gasolina, filmaram caminhões entrando no local, de madrugada, a fim de promoverem a mistura, filmaram o dono do posto chegando, em seu carro, ao local da falsificação, filmaram os caminhões com gasolina adulterada abastecendo o posto... enfim, documentaram tudo e não deixaram a menor dúvida de que aquilo era uma verdade. Pronto. Ao entrevistarem o dono do posto, no dia seguinte, ele negou tudo, como é comum no Brasil para todo bandido, principalmente da classe política, onde diariamente encontramos notícias do tipo: - “O deputado Fulano negou as acusações que lhe foram feitas”. - “Todo o mundo, na cidade e estado de origem do político, sabe que o sem vergonha é praticante descarado da corrupção, está riquíssimo, é dono de tudo quanto é coisa que existe na cidade e no estado, mulher com carrão importado, filho adolescente com outro carrão, filha com outro carrão, mansão e esnobação total, mas sempre nega qualquer acusação contra ele. Mas voltemos o foco para a questão da falsificação do combustível. A partir do momento em que a imprensa, junto com autoridades, pela documentação filmada e comprovada, lavrou o flagrante, indiscutível e inquestionável, o que nós, brasileiros, podemos esperar? Que aquele empresário, caracterizado como bandido, vá para a cadeia, que fique na cadeia e que o fato sirva de exemplo para que outros não voltem a fazer a mesma coisa, porque de fato, dá cadeia, já que este é um País sério?Nada disto! Podemos tirar o nosso cavalinho da chuva porque não é o que acontece. Já se sabe que o falsificador, absolutamente tranqüilo, vai contratar um advogado que, certamente, vai negar tudo, mesmo diante das evidências, vai procurar as chamadas “brechas da lei”, e ainda vai mover ação por danos morais contra o seu cliente, alegando nos autos do processo que ele está sendo vítima de perseguição. É ou não é assim, no Brasil, meu caro leitor??? Será que o Alamar está exagerando neste artigo? Eu tenho leitores no Brasil inteiro, do Amazonas ao Rio Grande do Sul, e desafio alguém a apontar um empresário falsificador de combustíveis ou de medicamentos que, de fato, esteja na cadeia, há mais de um ano. Se for preso, em raros casos, não passa um mês e é logo solto, pelo hábeas corpus lavrado por algum juiz muito generoso com quem tem dinheiro. Quando aparece uma autoridade que resolve endurecer um pouco e determina que o posto seja lacrado, com certeza não se passam 15 dias ou um mês e o posto está aberto novamente, com o empresário sentado lá, com um sorriso bem escancarado, debochando da população, como se dissesse: - “Eu não estou nem aí, comigo não pega nada, porque eu tenho os meus macetes”. Faço a mesma pergunta que fiz no parágrafo anterior: É que, certamente, ele, ou seu advogado, ligou para algum deputado, ou vereador, que ajudou no famigerado fundo de campanha, nas eleições anteriores, e bastou um telefonemazinho para que “pegassem leve com ele”. Se a autoridade que está “criando caso” com ele é da esfera municipal, um secretário municipal qualquer, por exemplo, e resolve dizer não, para o pedido do vereador amigo, sabe o que vai acontecer? O vereador vai se juntar ao outros vereadores, que certamente fazem a mesma coisa, e pedirão a cabeça dele para o prefeito. Se for uma autoridade da esfera estadual, o deputado intercessor, com certeza fará o mesmo e, junto com outros, pedirão a cabeça do “criador de caso” para o governador. E assim a coisa acontece, em todos os níveis, também no Federal, onde deputados federais e senadores, com suas bancadas de “apoio”, pedem a cabeça do Ministro, do presidente de autarquia, etc... Entenderam porque os bancos, as telefônicas, operadoras de cartões de crédito e financeiras fazem o que querem no Brasil? As companhias telefônicas são campeãs de reclamações no inútil Procon. Por que nada acontece contra nenhuma delas? No caso citado, da falsificação de combustíveis, o canalha deixa passar uns três, quatro ou seis meses e volta a fazer exatamente a mesma coisa, a partir do momento que todo mundo esqueceu. É por isto que o Brasil inteiro convive, sem parar, com todo tipo de falsificação. Quem não se lembra quando a mesma imprensa denunciou a falsificação de medicamentos? É um crime HEDIONDO, traiçoeiro, frio e extremamente cruel. A pessoa que precisa, por exemplo, de um remédio para controlar a sua pressão, ou uma sinvastatina, por exemplo, para controlar o seu colesterol, de repente compra um remédio falsificado, que não faz efeito, inesperadamente torna-se vítima de um AVC ou um infarto e morre. Foi assassinada pela indústria da falsificação de medicamentos, e não acontece nada com os responsáveis, ou irresponsáveis. Agora eu pergunto: Você sabe notícia de algum falsificador de medicamento que esteja na cadeia no Brasil? Vários foram identificados, quando a TV mostrou a denúncia, as câmeras registraram, o Fantástico mostrou e o Jornal Nacional também. E preste bem atenção no que vou lhe dizer agora: A falsificação de medicamentos continua, já que a coisa esfriou, ninguém falou mais nada, ninguém foi preso, e diversos são os medicamentos com fórmulas adulteradas que temos aí, à venda nas farmácias. Os médicos sabem disto, mas não podem dizer nada, coitados, senão eles também serão vítimas de uma máfia extremamente sem vergonha. Cuidado com o que você compra, principalmente esses remédios baratinhos demais, com 80% de desconto que as farmácias estão “dando”. Converse com o seu médico e procure saber o que ele diz a respeito do laboratório do remédio que você está tomando. Vivemos num país que, pela falta de vergonha na cara, só vemos as autoridades endurecerem em cima do cidadão de bem, colocando blitz policiais nas ruas para prenderem carros de quem não pagou a bi-tributação, chamada IPVA, enquanto se queixa da falta de homens para policiarem os redutos de tráfico de drogas e os verdadeiros bandidos. A “justiça” sempre é eficientíssima quando é para prender o homem que não pode pagar a pensão alimentícia, o que não pode honrar um cheque pré-datado ou o que é considerado “infiel depositário”, estas coisas que dão cadeia no Brasil. Repararam o quanto ela é eficiente, nesses casos? Do mesmo jeito que a polícia, para prender o pobre que roubou 250 gramas de margarina no supermercado. E o povo brasileiro, besta por natureza, continua querendo manter o seu rótulo de “bonzinho”, “pacífico” e “tranqüilo” não faz absolutamente nada. Temos que ficar de olho nas autoridades, cobrar e pressioná-las nesta questão da falsificação. Vamos todo mundo telefonar, passar e-mail para a autoridade e perguntar por que o Posto XYZ, que fora fechado por falsificação, abriu novamente? Quem autorizou a abertura e que providências foram tomadas em relação ao falsificador? Se o povo começar a pressionar, pra valer, com garra, com persistência a ponto de encher o saco da autoridade e sem medo, com certeza a ação daquele vereadorzinho ou deputadozinho safado, ficará mais difícil. Atenção radialistas do Brasil: Vamos entrar nesta de cobrar e pressionar, usemos os microfones das emissoras pra botar a boca no mundo... Coitado dos radialistas, infelizmente a maioria das emissoras de rádios pertence a políticos e o pobre termina perdendo o emprego. Então vamos nós, à luta! Usemos a internet que está se tornando cada vez mais poderosa. Você pode, sim, você tem força, não fique aí achando que a sua iniciativa é uma simples gota dágua no oceano, porque de gota em gota a gente forma um volume poderoso. Por um Brasil decente, por um país que tem tudo para ser um modelo para o mundo. / Alamar Régis Carvalho
sexta-feira, 13 de março de 2009
SÓ PARA RELEMBRAR ( O DESENVOLVIMENTO URBANO DE SÃO MIGUEL PAULISTA )
O recente processo de urbanização e de desenvolvimento econômico do bairro de São Miguel Paulista pode ser considerado como uma modalidade específica de incorporação de um antigo subúrbio isolado ao processo de expansão do urbano paulistano. Uma das suas características principais foi a implantação, em 1935, de uma indústria de grande porte na região, atraindo migrantes nacionais, principalmente nordestinos, para trabalharem em suas instalações, antes mesmo que o bairro tivesse a função propriamente residencial. Pode-se considerar como marco histórico da expansão urbana em São Miguel Paulista, a construção da Rodovia São Paulo-Rio, em 1920, que cortava o bairro e o colocava no principal circuito comercial interestadual. Em 1930, inaugurou-se uma linha de ônibus entre Penha e São Miguel amenizando a situação do transporte, mas não o resolveu. A construção de uma variante da Estrada de Ferro Central do Brasil e a inauguração da estação de São Miguel, no centro histórico do bairro em 1932, supriram as deficiências deixadas pelo serviço de ônibus. Em 1935, instalou-se em São Miguel Paulista a Companhia Nitro-Química Brasileira que inaugurou a fase industrial do bairro e marcou, assim, a época da modernização da região. Instalada distante do centro da cidade, em uma área de aproximadamente 503.000 m2, próxima à estação ferroviária, a Nitro-Química provocou um grande deslocamento humano que reforçou o crescimento populacional de São Miguel Paulista. Como decorrência imediata da instalação da Nitro-Química Brasileira na região, houve uma notável modificação da paisagem local. O bairro ganhou arruamento em todas as direções; as chácaras e o matagal cederam lugar às vilas operárias e às novas vilas. Surgiu a fase de loteamentos incrementada a partir de 1935 e que trouxe, como conseqüência, o desaparecimento da fisionomia rural do bairro. Foi construída uma vila operária, paralelamente à construção da fábrica, como uma forma de fixar o trabalhador perto do local do trabalho, já que não havia locação de moradia na região e o transporte ferroviário começava a tornar-se deficitário para atender a demanda da enorme expansão demográfica da cidade de São Paulo. Para ter-se uma idéia do tamanho da indústria para a região, basta dizer que, em 1940, ela já empregava cerca de 2.700 funcionários, ou seja, um número equivalente a um terço do total da população de São Miguel Paulista, que na época contava com aproximadamente 7.600 habitantes. A partir desse momento, o crescimento econômico e populacional de São Miguel foi vertiginoso. A rede de comércio e a própria indústria expandiu-se a ponto de, hoje em dia, existirem grandes empresas na região. Em 1938, foi inaugurada a primeira escola pública local, o Grupo Escolar de São Miguel Paulista que, posteriormente, recebeu o nome de Grupo Escolar Carlos Gomes. Diante do aumento populacional na região e das novas exigências do mercado de trabalho, a rede de ensino, pública e privada, conheceu uma grande expansão. / ROGER LAPANSÓ PARA RELEMBRAR ( A FORMAÇÃO DA CLASSE OPERÁRIA EM SÃO MIGUEL PAULISTA )
“E foi mais ou menos assim pessoal, que esta fábrica cresceu e inundou São Miguel, com sua negra fumaça, seu ácido, seu asco”. Depoimento de Severino Barbosa de Sousa, ex-operário da Nitro Química. Explicitando que seu estudo “(…) é fruto de uma postura política científica partindo de um olhar marxista”, a autora apresenta na tese O bairro à sombra da chaminé a história “(…) da formação da classe trabalhadora da Companhia Nitro Química Brasileira (1935 a 1960)”. História esta que se confunde com o próprio desenvolvimento do bairro de São Miguel Paulista, na Zona Leste de São Paulo — um dos mais populosos e ricos em tradição da capital. Neste trabalho a autora mostra a trajetória da empresa, de origem americana e associada com os grupos brasileiros Klabin e Votorantim, produtora de fios, seda artificial e outros produtos químicos e têxteis. Num primeiro momento, devido à demanda de mão-de-obra, a indústria incentiva a migração de nordestinos e, em menor contingente, de mineiros. Através de empreiteiros contratados, seus caminhões transportam como gado centenas de retirantes famintos. A exemplo da experiência de outras fábricas, esta é a saga de milhões de trabalhadores brasileiros. A empresa teve momentos de altos e baixos na economia. Sempre gozando das benesses do Estado, inclusive com a isenção de impostos quando da transferência das máquinas dos Estados Unidos, a fábrica ficou conhecida pela péssima qualidade dos produtos fabricados e, principalmente, pela violenta exploração dos trabalhadores. Era a fábrica da morte. A Nitro Química também ficou conhecida pela rigidez de seus regulamentos internos. Mesmo as idas ao banheiro têm seu tempo controlado. O trabalhador é proibido de ler jornais ou livros nos momentos de folga. As conversas em rodinhas de operários são dissolvidas pelos supervisores. Citando Michel Foucault, a autora fala da “(…) micropenalidade do tempo, que reprime atrasos, ausências, interrupções das atividades e tudo aquilo que signifique redução do ritmo de exploração do capital”. O relato da resistência dos trabalhadores à situação de explorados na fábrica e marginalizados no bairro da periferia é um dos pontos altos da pesquisa. A autora demonstra que “(…) os habitantes de São Miguel Paulista sempre se mantiveram na oposição política”, mesmo sem maior consistência ideológica. Já no espaço fabril a luta será hegemonizada pelos militantes do Partido Comunista, que têm atuação intensa e criativa no interior da empresa. A primeira greve dos operários da Nitro Química ocorreu em 1946. Arrancou algumas conquistas, mas foi seguida de implacável repressão. A indústria, dirigida por José Ermírio de Moraes demite os líderes, fecha o restaurante interno e discrimina os filhos de alguns grevistas na creche da empresa. Começa a vigorar a lista negra. Os comunistas desencadearam então, no bairro, a campanha da fome. Repressão intensa mais ação paternalista foi a receita seguida pela Nitro. Núcleo residencial, restaurante interno, berçário, clube de regatas. “A fábrica mascarada foi aos poucos descaracterizada como o locus da opressão e exploração, ao contrário, mostrou-se para muitos como uma grande família, um segundo lar muito feliz” — comenta a autora. A leitura desta pesquisa revela a formação de classe dos operários da Nitro Química. Ela estuda todas as contradições deste processo. De um lado, a empresa e seus eficazes instrumentos de manutenção da hegemonia, procurando criar “(…) um operário dócil, submisso e economicamente produtivo”. Do outro o trabalhador — tanto no espaço fabril como no local de moradia — questionando o sistema de exploração capitalista. /ROCHA, Antonia Sarah Azis. O bairro à sombra da chaminé. Tese de mestrado apresentada à PUC-SP, 1992. quinta-feira, 5 de março de 2009
LULA NÃO SERVE. NEM DILMA . . .
Lula tem altos índices de popularidade. Muitos não confiam nas pesquisas. Convém ter em vista, no entanto, que o brasileiro é muito superficial em política. Cai em qualquer conversa. As pesquisas podem, até, representar a realidade. Temos um exemplo vivo do que pode acontecer com a gente: ficar igual à Venezuela e à Bolívia. Lula usa os pobres para perpetuar-se no poder. Na Venezuela e na Bolívia Chávez e Morales fazem a mesma coisa. Lula afirmou, por várias vezes que nunca foi esquerdista. Acho até que ele nem sabe o que é isso. O desejo único dele é continuar na crista da onda. Faz muito barulho, sempre. O leitor já viu Lula na televisão falar com calma e argumentar? Barulhento e vermelho. Está assim sempre. Por traz dessa aparência que, de fato, sensibiliza a maioria do povo, faz suas tramas. Uma delas é transformar o governo numa propriedade privada sua. O leitor se lembra da estrela-símbolo de seu partido que foi implantada nos jardins de seu palácio em Brasília? Não sei se ainda está por lá mas que foi um acinte, ninguém duvida. Seu palácio é o palácio da nação. Não é dele. Em “seu” Boeing suntuoso corre mundo. Esquece a pobreza que diz ter muito por aqui. Do governo anterior, manteve o principal que foi a política econômica. Pudera! Sabia que seria a única forma de não deixar a inflação voltar. No mais, no entanto, destruiu quase tudo. As Agências Reguladoras, que foram uma conquista relevante para não permitir que assuntos técnicos fossem contaminados pela política foram completamente destruídas. Todos os grandes caciques da política já têm uma programação de indicações de afilhados para cargos de diretor das agências. As estatais que tinham sido banidas em nome da eficiência e da economia estão de volta. Eletrobrás e Telebrás são exemplos. Tudo para manter afilhados políticos em postos de comando. O entusiasmo com o petróleo do pré-sal abriu a oportunidade imperdível da criação de uma estatal exclusiva para cuidar dele. Como se já não bastasse a Petrobrás para impedir a concorrência nos preços dos combustíveis. Ainda bem que a crise obrigou o governo a esquecer um pouco o assunto. O Bolsa-Família é o exemplo de assistencialismo. Lula acabou de incluir mais 1,3 milhão de pessoas no programa em vez de oferecer recursos para a dinamização do comércio, da agricultura e da indústria numa época de crise. O senador Jarbas Vasconcelos declarou que o Bolsa-Família é o maior programa de compra de votos do mundo. Lula não fez reforma alguma. Preocupou-se, exclusivamente, com a capitalização do assistencialismo. De fato, toda a reforma, por mais importante que seja, deixa seqüelas políticas para seus realizadores. Mas são riscos que um bom político precisa estar disposto a correr. Lula paga o preço que for para não perder a popularidade. Não quer nenhum arranhão. Algumas reformas necessárias que não foram nem tocadas: partidária, tributária, previdenciária e trabalhista. O escândalo do mensalão, entre os demais, não abalou Lula. Ele deveria ter virado a mesa. Não conseguiu virar. Estava embaixo dela. Dilma para suceder Lula? Ficará tudo igual. Ela é exatamente igual a ele. Ainda mais que, agora, aprendeu a sorrir. E até plástica fez. O recente encontro de prefeitos em Brasília foi a prova do descaramento de Lula para promover sua candidata. Só com o recebimento das delegações, o governo gastou mais de 2 milhões de Reais. Fora o custo das benesses oferecidas aos prefeitos. a sucessão ainda não é uma certeza. Ouvi de um político que não está descartado um 3º mandato. Acredito. Lula é matreiro o suficiente para não abrir o jogo. E Chávez e Morales estão aí para ensinar.EM 2010 PRECISAMOS SUBSTITUIR LULA
Lula é um fenômeno. A popularidade é nunca vista. Em todas as classes socias. Maior que a de Getúlio. Mas não é justificativa para eu me calar. Hitler foi considerado um deus na Alemanha. Stalin também foi na União Soviética. Fidel Castro idem. Peron, também. Hugo Chávez está sendo. Evo Morales, igual. E por aí vai. Há grandes diferenças de comportamento entre esses nomes mas é somente uma questão de graduação. Todos usaram o Estado para perpetuar-se no poder. Aqui vão algumas razões pelas quais acho que Lula não serve. Além dessas, há muitas outras. Cada uma delas pode ser questionada. O leitor poderá manifestar-se sobre meus exageros ou omissões com a certeza de que sua mensagem será transcrita na próxima edição. 1-O histórico de Lula não é exemplo de nada. Como profissional, não se tem notícia nenhuma de sua curtíssima dedicação ao trabalho. Como dirigente sindical, usou e abusou de seu incrível carisma exercitando-se como condutor de massas. Como político, usou e abusou de seu partido. Considero-o o estímulomais infiel de todos os políticos brasileiros. 2-Apego sem medida por Fidel Castro, Hugo Chávez, Evo Morales e condutores de outros países de esquerda. Nunca tivemos um presidente assim. 3-Oposição compulsiva aos Estados Unidos. De fato, sem os Estados Unidos não teríamos crise. Mas não teríamos, também, a maior nação do mundo. 4-Desvirtuamento de nossa política externa. Nosso País está tendo prejuízos. Lula ama os fracos e odeia os fortes. 5-Nenhuma iniciativa para introduzir no País reformas fundamentais como a trabalhista e a previdenciária. 6-Proteção ao sindicalismo: estímulo para que a contribuição sindical continue obrigatória. Destino de parte de seus recursos às Centrais Sindicais sem nem a obrigação de prestar contas de seu uso. 7-Transposição das águas do Rio São Francisco em lugar de implementar planos racionais já existentes de suprimento de água para o polígono das secas. A transposição é uma agressão à natureza. Além de propiciar a continuação da “indústria da seca”. 8-Interesse tendencioso na aprovação da compra da Brasil-Telecom pela Oi. Até hoje, ninguém demonstrou o que o consumidor ganhará com isso. 9-Instituição de programas assistencialistas permanentes e eleitoreiros em vez dos que deveriam existir para alavancar a ascenção social dos mais pobres. Só alavancar. 10-Fuga de responsabilidade por casos de corrupção como o do mensalão. Outros episódios significativos: morte de Celso Daniel e Operação Satiagraha (Daniel Dantas). O histórico da ascenção política de Lula tem ligação com casos nebulosos. Componentes do governo Lula que, por seu histórico e por sua conduta atual não servem ao País: -Dilma Rousseff -Tarso Genro -Paulo Vanuchi -Carlos Lupi -Marco Aurélio Garcia -Celso Amorim -Edson Lobão -Franklin Martins -Hélio Costa. /José Roberto Doubek Lopes
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